DOCUMENTO ACADÊMICO / UFRB / 2021
Memorial do Projeto de Direção de Arte do Filme Nem Sempre Você Vai Querer me Amar pra Sempre
Memorial de conclusão do Bacharelado em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, com texto e projeto visual integralmente disponibilizados para consulta.
Memorial acadêmico apresentado ao Bacharelado em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em Cachoeira, 2021. Orientação da Prof.ª Dr.ª Dorotea Souza Bastos.
Esta edição digital disponibiliza o texto para leitura em HTML e reproduz as pranchas de concepção visual do projeto. O texto mantém a redação da versão apresentada à UFRB. As imagens e os créditos seguem o documento original.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA - UFRB
CENTRO DE ARTES, HUMANIDADES E LETRAS - CAHL
BACHARELADO EM CINEMA E AUDIOVISUAL
FLÁVIO DOS REIS DOS SANTOS
MEMORIAL DO PROJETO DE DIREÇÃO DE ARTE DO FILME NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE
Cachoeira, 2021

FLÁVIO DOS REIS DOS SANTOS
MEMORIAL DO PROJETO DE DIREÇÃO DO ARTE DO FILME NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Colegiado de Cinema e Audiovisual do Centro de Artes, Humanidades e Letras, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Cinema e Audiovisual.
Orientadora: Drª Dorotea Souza Bastos
Cachoeira, 2021
FLÁVIO DOS REIS DOS SANTOS
MEMORIAL DO PROJETO DE DIREÇÃO DE ARTE DO FILME NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Colegiado de Cinema e Audiovisual com ênfase em Documentário, do Centro de Artes, Humanidades e Letras, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, como requisito para parcial para a obtenção do título de Bacharel em Cinema e Audiovisual.
Banca Examinadora:
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Drª. Dorotea Souza Bastos (Orientadora)
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Drª Noeli Batista dos Santos
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Luciana dos Santos Sacramento
Cachoeira, Maio de 2021.
Dedico esse projeto a minha mãe Ademildes dos Reis dos Santos.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Ademildes dos Reis dos Santos, minha mãe, pelas décadas de esforço, amor e paciência. Aos meus irmãos Leia, Liliam, Fernanda, Leandro, Melissa, Robson e Raiane pela força e incentivo, minhas tias Jucelina (in memoriam), Vania, Tita, Carmem, Rhal, Ana, Eunice e Lucia que cuidaram de mim desde a infância, ao meu pai Valdemar e sua esposa Valdirene, meus primos Rogério, Vinicius, Fábio e Fagner e meus avós Mercês (in memoriam) e Valdemar (in memoriam) pelas horas de risadas.
Aos meus incríveis amigos Edmar Gomes, Benhur Brião, Jacqueline Novaes, Eurito Vieira, Polyanna Bopp, Betine Rost, Silvana Rodrigues, Bruna Abubakir, Filipe Matzembacher, Mariel Fülber, Tina Fernandes, Gabriel Gabo, as irmãs Priscila e Isadora Almeida, Raphael Homem, Dandara Soares, Julia Seraphim, Giulianna Palumbo, Graco Fadanelli, Themis Santos, Brisa Araújo, Andressa Nascimento, Felipe Bolzan, Ian Massing, Leonardo Guaragni, Liliane Tosta, Leila Carvalho, Andressa Almeida, Raphael Matielli, Lacpan Cachoeira, Marcele Acosta, Aquila Matos, Joice Nunes, Sandra Liss, Jucira Fraga, Sâmia Letícia, Iara Vieira, Vivian Santos, Pedro Domingues e Vanessa Nunes (in memoriam) por todas as horas de conversas, festas, críticas, conselhos e, principalmente, paciência nessa jornada que vivi na Bahia e no Rio Grande do Sul.
Um agradecimento a mesa do drama e seus componentes Lovato, Cevallos, Rayssa, Iuleska, Marnon, Patrick, Guilherme, Maurício e Tiago (in memoriam), aos donos de bares e boates de Porto Alegre e Cachoeira, Vitor Lucas, Russo (in memoriam), Neusa (in memoriam), Sonia, Deninha e Paulo Lomba (in memoriam), aos amigos que fiz na UFRB Laila Rittel, Rísia Nathaly, Gabriel Paz, Matheus Leone, Ingrid Leal, Taís Moreira, Bárbara Carmo, Adler Braga, Flávia Novaes, Rodrigo Amaral, Felipe Passos, Fernanda Mathieu, Bruna Maria, João Guilherme e Pedro Rodrigues.
Toda essa jornada na UFRB foi possível graças aos professores, colegas de Revista Cine Cachoeira, companheiros de LabDrama e VISU e todas as pessoas que me deram carona nos quatro anos que subi e desci de Muritiba para Cachoeira.
Aos meus colegas de UFRB que aceitaram fazer parte do projeto desse filme, que será, um dia, uma obra com todos esses olhares e emoções que me trouxeram até aqui.
Finalizando, gostaria de agradecer a minha orientadora Dorotea Bastos pelas longas horas de conversa nas mesas da 25, o incentivo para me manter no curso quando nada parecia fazer sentido e a banca por ter aceito, de bom grado, participar dessa conclusão da minha passagem pela Faculdade de Cinema e Audiovisual da UFRB.
Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos. Machado de Assis.
RESUMO O memorial, a seguir, apresenta o projeto de direção de arte do curta metragem NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE, com destaque para a visualidade pretendida visando narrar, artisticamente, os personagens em seu universo.
Palavras chaves: projeto, direção de arte, hipster, figurino, personagens
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Equipe do filme “Deu pra Ti, Anos 70”. Fonte: Jornal Zero Hora ................. 16
Figura 2: Festa hipster na Casa do Lado em Porto Alegre/RS, 2011. Fonte: Facebook. 18
Figura 3: Cena do filme Before Sunrise, 1995. Fonte: Google Imagens........................ 18
Figura 4: Hipsters. Fonte: Investigation of the Hipster. ................................................. 19
Figura 5: Detalhes sobre os hipsters. Fonte: Google Imagens. ...................................... 19
Figura 6: Avenida Osvaldo Aranha, Porto Alegre/RS. Fonte: Google Imagens. ........... 20
Figura 7: Rua Felipe Camarão, Porto Alegre/RS. Fonte: Google Sreeet View.............. 20
Figura 8: Professor Raimundo (Chico Anysio) e o Magro do Bonfa (André Damasceno),
1992. Fonte: Google Imagens. ........................................................................................ 21
Figura 9: Gaúcho Gaudêncio (Ivon Curi), 1991. Fonte: Youtube. ................................. 21
Figura 10: Detalhes da Rua Manoel Paulo Filho, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo
pessoal. ........................................................................................................................... 23
Figura 11: Rua Manoel Paulo Filho, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal. .............. 23
Figura 12: Casarões históricos em Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal................... 24
Figura 13: Cena do filme Tinta Bruta, 2018. Fonte: Vimeo........................................... 26
Figura 14: Cena do filme Tinta Bruta, 2018. Fonte: Vimeo........................................... 27
Figura 15 Cena do filme Tinta Bruta, 2018. Fonte: Vimeo. ........................................... 27
Figura 16: Cena do filme Tinta Bruta, 2018. Fonte: Vimeo........................................... 28
Figura 17: Festa D'Ajuda, Cachoeira/BA. Fonte: Google Imagens. .............................. 29
Figura 18: São de Cachoeira/BA, 2016. Fonte: Google Imagens. ................................. 30
Figura 19: Cortejo da Festa da Boa Morte, Cachoeira/BA. Fonte: UFRB. .................... 30
Figura 20: Estilo escandinavo. Fonte: Google Imagens. ................................................ 31
Figura 21: Estilo minimalista. Fonte: Google Imagens. ................................................. 32
Figura 22: Estilo industrial. Fonte: Google Imagens. ..................................................... 32
Figura 23: Cena do filme THX 1138, 1971. Fonte: Google Imagens. ........................... 34
Figura 24: Cena do clipe Fall in Line, de Christina Aguilera, inspirado em THX 1138.
Fonte: Youtube. .............................................................................................................. 35
Figura 25: Cenas da novela Deus nos Acuda, 1992. Fonte: Google Imagens. ............... 35
Figura 26: Paleta de cores do filme. Fonte: Arquivo pessoal. ........................................ 36
Figura 27: Marca do filme. Criação: Flávio Reis, edição: Benicio Lira. Fonte: Arquivo
pessoal. ........................................................................................................................... 36
Figura 28: Cenas do filme Kill Bill, 2003. Fonte: Google Imagens. .............................. 38
Figura 29: Cenas do filme O Iluminado, 1980. Fonte: Google Imagens........................ 38
Figura 30: Cena da série Dark, 2017. Fonte: Google Imagens ...................................... 39
Figura 31: Cena da série Vis a Vis, 2015. Fonte: Google Imagens ................................ 39
Figura 32: Cena do filme Moonrise Kingdom, 2012. Fonte: Google Imagens. ............. 40
Figura 33: Círculo cromático. Fonte: Google Imagens .................................................. 41
Figura 34: Thanos em filmes da Marvel. Fonte: Google Imagens. ................................ 42
Figura 35: Cenas do filme Guardiões das Galáxias, 2014. Fonte: Google Imagens ...... 42
Figura 36: Cenas da série Legion, 2017. Fonte: Google Imagens. ................................. 43
Figura 37: Cenas do filme The Color Purple, 1985. Fomte: Google Imagens. .............. 43
Figura 38: Cena do filme Color Out of Space, 2020. Fonte: Google Imagens. ............. 44
Figura 39: Cena do filme The Grand Budapest Hotel, 2014. Fonte: ArchyDaily. ......... 46
Figura 40: Cena do filme Demolition, 2016. Fonte: Google Imagens. .......................... 46
Figura 41: ícaro Silva, ator. Fonte: Google Imagens. ..................................................... 47
Figura 42: Sérgio Malheiros, ator. Fonte: Google Imagens. .......................................... 48
Figura 43: Zayn Malik, cantor. Fonte: Google Imagens. ............................................... 48
Figura 44: Tiago Iorc, cantor. Fonte: Google Imagens. ................................................. 49
Figura 45: VJs anos 90 e 2000 da MTV Brasil. Fonte: Google Imagens. ...................... 49
Figura 46: James Dean, ator. Fonte: Google Imagens. ................................................... 50
Figura 47: Kurt Cobain, músico. Fonte: Google Imagens. ............................................. 51
Figura 48: Valerio Montesinos (Jorge López), Elite, 2019. Fonte: Google Imagens ..... 52
Figura 49: Feira de Agricultura Quilombola, Cachoeira/BA. Fonte: Humana Brasil. ... 53
Figura 50: Tai Frasier (Brittany Murphy), Clueless, 1995. Fonte: Google Imagens. .... 54
Figura 51: Elle Evans( Joey King), A Barraca do Beijo, 2018. Fonte: Google Imagens.
........................................................................................................................................ 55
Figura 52: Creep, banda Radiohead, 1992. Fonte: Youtube. ......................................... 56
Figura 53: Kayako Saeki (Junko Bailey), remake americano de O Grito, 2020. Fonte:
Google Imagens. ............................................................................................................. 57
Figura 54: David sendo atacado pelo Rei das Sombras e perdendo o controle de seus
poderes na série Legion, 2017. Fonte: Google Imagens. ................................................ 58
Figura 55: Malcolm Rivers e suas personalidades no filme Identidade, 2003. Fonte:
Google Imagens. ............................................................................................................. 58
Figura 56: o milagre dos efeitos especiais. Fonte: Observatório de Tendências Digitais
da PUCPR. ...................................................................................................................... 59
Figura 57: Bistrô Casa de Avany, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal. .................. 60
Figura 58: Salão do bistrô Casa de Avany, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal. .... 61
Figura 59: área externa do bistrô Casa de Avany, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo
pessoal. ........................................................................................................................... 61
Figura 60: Palco na área externa do bistrô Casa de Avany, Cachoeira/BA. Fonte:
Arquivo pessoal. ............................................................................................................. 62
Figura 61: exemplo de ambiente em tom de amarelo. Fonte: Google Imagens. ............ 62
Figura 62: Exemplo de quadro com recortes de fotografias e tecidos. Fonte: Arquivo
pessoal. ........................................................................................................................... 63
Figura 63: Objetos de decoração da cozinha. Fonte: Google Imagens. ......................... 64
Figura 64: Objetos de decoração da sala. Fonte: Google Imagens. ................................ 64
Figura 65: Objetos de decoração da sala. Fonte: Google Imagens. ................................ 65
Figura 66: Varal de luz led. Fonte: Shopee. ................................................................... 67
Figura 67: Literatura de cordel. Fonte: Google Imagens................................................ 67
Figura 68: Vomitório Zine, Caxias do Sul/RS. Fonte: Google Imagens. ....................... 68
Figura 69: jarros feitos à base de papelão....................................................................... 68
Figura 70: processo de produção dos jarros de papelão. Fonte: Arquivo pessoal. ......... 69
Figura 71: Vetores para decoração das paredes.............................................................. 70
Figura 72: Vetores para decoração das paredes.............................................................. 71
Figura 73: Vetores para decoração das paredes.............................................................. 72
Figura 74: Gramado do prédio Ana Neri, UFRB - Cachoeira/BA. Fonte: Google
Imagens. .......................................................................................................................... 73
Figura 75: Gramado do prédio Ana Neri, UFRB - Cachoeira/BA. Fonte: Google
Imagens. .......................................................................................................................... 74
Figura 76: Gato Félix e sua bolsa mágica transformada em barco. Fonte: Youtube. ..... 76
Figura 77: Lanterna em formato de livro. Fonte: Shopee. ............................................. 77
Figura 78: detalhes da gola. Fonte: Arquivo pessoal...................................................... 77
Figura 79: Camisa desenvolvida para EU 2. Fonte: Arquivo pessoal. ........................... 78
Figura 80: exemplo de figurino para EU 2. Fonte: Google Imagens. ............................ 79
Figura 81: Exemplo de figurino para VOCÊ. Fonte: Google Imagens. ......................... 80
Figura 82: Exemplo de figurino para EU 1. Fonte: Google Imagens. ............................ 80
Figura 83: Arte final da banda No Nickname. Fonte: Arquivo Pessoal. ........................ 93
SUMÁRIO UM NOVO RECOMEÇO ........................................................................................... 12 1 – DA HISTÓRIA À DIREÇÃO DE ARTE ............................................................. 16 1.1 – Influências na concepção do projeto de arte ...................................................... 25 1.2 – A paleta de cores ................................................................................................ 33 1.2.1 – Amarelo .......................................................................................................... 37 1.2.2 – Roxo ............................................................................................................ 40 1.2.3 – Coral ............................................................................................................ 44 1.3 – Os personagens e suas referências ..................................................................... 47 1.3.1 – Eu 2 ............................................................................................................. 49 1.3.2 – Você ............................................................................................................ 53 1.3.3 – Eu 1 ............................................................................................................. 56 2 – O MUNDO DOS PERSONAGENS ATRAVÉS DA CENOGRAFIA .............. 58 2.1 – A casa ................................................................................................................. 62 2.2 – O café ................................................................................................................. 66 2.3 – A clínica ............................................................................................................. 73 3 – O MUNDO DOS PERSONANGENS ATRAVÉS DOS FIGURINOS .............. 75 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 81 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 83 REFERÊNCIAS AUDIOVISUAIS ............................................................................. 85 APÊNDICE 1 ................................................................................................................ 88 APÊNDICE 2 ................................................................................................................ 93
UM NOVO RECOMEÇO
Intensidade. Bem mais que seus sinônimos, essa palavra é a perfeita definição das aventuras que vivi nos meus 41 anos de vida.
Após a morte traumática da minha tia Juscelina Gusmão dos Reis, senti que precisava mudar de ares e de vida. Foi assim que, em 2006, desembarquei no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre-RS, com menos de R$ 1.000,00 (mil reais) para sobreviver e passar por situações que jamais imaginei que seriam possíveis para um homem de 26 anos, mas com cabeça e vivência de adolescente.
Foi muito bom ter sido subestimado, pois isso me deu raiva e força suficientes para passar seis anos me adequando a vida em Porto Alegre, ou melhor dizendo, sempre tendo que arrumar emprego para pagar aluguel, comida e transporte.
Fui para Porto Alegre depois de ganhar bolsa integral pelo PROUNI, numa época que internet em casa ainda era algo impensável e íamos para as lan houses acessar e-mail, redes sociais e jogar online. Mudar de estado era algo tão empolgante quanto absurdo e muita gente não acreditou que eu teria coragem de ir para um lugar que eu não tinha parentes, amigos ou conhecidos.
Por lá, fiz duas escolhas de cursos universitários não condizentes com o que minha inquietação artística precisava.
Primeiro, em 2006, curso de publicidade e propaganda no IPA (Instituto Porto Alegre), depois, no segundo semestre de 2006, Administração de Marketing na PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).
No IPA aprendi como era a vida em Porto Alegre e fiz alguns amigos que até hoje mantenho contato. Passei pouco tempo no curso, mas foi quando tive a primeira experiência de trabalhar e estudar, morar numa república com vinte desconhecidos e frequentar algumas boates e bares.
A vida na PUCRS foi intensa. Trabalhar, estudar e viver em festas, cancelar semestre e seguir no curso só para ter estágio, um grupo de teatro e uma quantidade de amigos que nunca imaginei que teria. Anos trabalhando nos eventos internos, vendo pessoas chegando nas festas de recepção a calouros, despedidas nas formaturas e visitas as escolas públicas e particulares compensavam minha total falta de vontade de assistir aula, já que eu passava quase 18 horas por dia no campus e, à noite, só queria ir embora para algum bar ou boate.
Foram anos postergando tomar uma decisão definitiva de abandonar Administração de Marketing e seguir o que meu lado artista pedia.
E, ao lembrar desse chamado para retornar à arte, um bairro na capital gaúcha tem importância essencial nessa decisão: viver no bairro Bom Fim moldou minha visão sobre arte urbana e comportamento.
A vida na região central de Porto Alegre para quem busca um respiro artístico em meio ao grande caos urbano tem dois oásis em forma de bairros: Cidade Baixa e Bom Fim.
A boemia da Cidade Baixa é um ponto de encontro de inúmeras identidades artistas brasileiras. Quer pela localização privilegiada, unindo as regiões centrais, leste e sul da cidade, quer por suas noites que começam às 14:00 e termina às 8:00 da manhã do dia seguinte, a vida na cidade baixa tem um tom diferente.
Roqueiros e punks unidos na frente de um supermercado que fica ao lado de um bar com temática do sertanejo universitário, a Rua da República e sua fama de abraçar as diversidades artísticas, de gênero e sociais no mesmo espaço que alguns bares e pubs, com estilos tão particulares, agrupam todas as diferenças que transitam por lá.
Já o Bom Fim, que assim como a Cidade Baixa tem origem na ocupação dos negros gaúchos, é um Eldorado da arte brasileira. Nos anos 70 e 80, a bravura de jovens em romper o conservadorismo, na fase decadente da ditadura militar, mas não menos perigosa, criou um momento único no fazer, distribuir e consumir arte em Porto Alegre, reverberando em todo o país.
As inovações narrativas, as salas de cinema baratas, os shows musicais e grupos de teatro foram provocando uma maciça concentração de jovens em torno da Avenida Osvaldo Aranha. O ir e vir de pessoas, criando e consumindo arte transformou o Bom Fim numa entidade impessoal até hoje respeitada. Aquele momento da história nunca mais se repetiu, mas a fama do Bom Fim atraiu jovens universitários para o bairro, que foi, ao longo das décadas, sofrendo processo de gentrificação até se tornar um charmoso bairro hipster.
No Bom Fim, morei em duas ruas: Osvaldo Aranha e Felipe Camarão. A Osvaldo é uma pequena avenida marginal ao Parque Farroupilha, conhecido como Redenção. Um ponto de encontro nos finais de semana para conversar, tomar chimarrão e chupar tangerina, ou como dizem os gaúchos “comer uma bergamota”.
É na Osvaldo Aranha que funciona a boate Ocidente, um ponto de encontro da cultura alternativa que resistiu as décadas e mudanças de comportamento do bairro, e
serve como referência para composição dos figurinos e comportamento do personagem nesse projeto.
Já a rua Felipe Camarão é conhecida pelos alagamentos em dia de chuva e falta de luz, mas sequer esses pontos negativos são suficientes para tirar o charme dos moradores que parecem terem sidos tirados de um filme ou clipe inglês indie.
O sonho em dar certo em Porto Alegre acabou em 2015. Já havia abandonado a PUCRS, fiz vestibular para Física Computacional na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) mas, não fui classificado e nenhum emprego à vista. Era hora de voltar para Bahia. Mas, tinha um porém: como voltar sem dinheiro para a passagem?
Entre janeiro e fevereiro de 2015, por rodovias, ruas, estradas e inúmeras cidades, fui caminhando e pegando carona com um único objetivo: retornar para casa e recomeçar.
Eram cenários lindos do território brasileiro que não teria conhecido se não fosse a coragem e necessidade de fazer esse mochilão. Dormi diversas vezes em postos de gasolina ou em pontos de pedágio, onde também conseguia comer e tomar banho. Andava quilômetros sem conseguir carona ou local para descanso, como na Serra do Mar, mais especificamente Estrada da Graciosa e BR 116 entre o Paraná e São Paulo, da Zona Sul de São Paulo até Mairiporã e da entrada de Belo Horizonte até Contagem. As lindas praias de Santa Catarina, as montanhas e plantações em Minas e a sorte de ter encontrado pessoas que me ajudaram a chegar no meu destino.
Jamais esquecerei de Junior Lessa em Itajaí/SC parando o carro e me levando até Joinville, ou do pastor José que me levou de Joinville até Curitiba e do Seu Romildo que me trouxe de Contagem/MG até Itatim/BA
Em 2016 um novo mundo se abriu: entrei no curso de cinema da UFRB. O recomeço não foi fácil, já que tinha que equilibrar as dificuldades de trabalhar em até três lugares com um curso integral, sem deixar a essência boêmia de lado.
Os anos foram passando, e uma decisão sobre o tema do trabalho de conclusão de curso precisava ser tomada. Entre as ideias recheadas com a megalomania ingênua que todo estudante de cinema carrega, a falta de objetividade nas propostas e a lembrança de que arte é um ponto importante do filme foram aproximadamente dois anos até a decisão de fazer um projeto de direção de arte ligada ao roteiro de NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE.
Mas, depois da decisão, várias dificuldades pessoais surgiram até o início da produção do projeto.
Insegurança com os conhecimentos de arte necessários para descrever a história do ponto de vista artístico foi uma das grandes dificuldades a ser enfrentada. Ter aulas de educação artística na década de 90, curso de desenho para quadrinhos e mangá nos anos 2000 e design gráfico em 2015 não eram garantia de elaboração de um bom projeto de arte.
O sentimento de não pertencer à área, os questionamentos sobre motivos para escolha do tema e, principalmente, a quase certeza que não seria compreendido foram sensações que não só passavam pela minha cabeça, eram quase uma presença imaterial deixando toda e qualquer decisão passível de ser hostilizada por quem quer que fosse ler o projeto.
Ao superar esses entraves pessoais, era hora de buscar força de vontade suficiente para conseguir superar a desmotivação com a questão da pandemia (que faz com que o projeto não fosse gravado) e as incertezas com o futuro profissional pós-formatura. Nada assusta mais um estudante em vias de se graduar do que a incerteza de que conseguirá trabalhar na área que dedicou tempo e esforço para estudar.
Sim, o tema escolhido foi focado na direção de arte do curta. Sim, muitas dificuldades para explicar o projeto surgiram até criar um modelo adequado para apresentação. Sim, certeza apenas de que o percurso na UFRB está encerrando junto com quatro anos de correria Muritiba/Cachoeira, trabalhar e estudar sem conseguir ganhar o suficiente para guarda dinheiro e ter como foco apenas os estudos. Mas tudo isso só aumenta a responsabilidade de dizer o que essa arte quer passar e como pode ser entendida.
Assim, o projeto de direção de arte do curta metragem NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE foi ganhando vida no Corel até ser finalizado.
Para concluir os quatro anos de pesquisa sobre arte, este documento apresenta pormenores das decisões que levaram a criação do projeto, tendo como pontos principais as cores, a cenografia e seus elementos e a influência dos figurinos na personalidade de cada personagem.
1 – DA HISTÓRIA À DIREÇÃO DE ARTE
Através de um desafio proposto na aula de Roteirização I ministrada pelo professor Roberto Duarte, senti que poderia ir além do exercício de adaptação da obra de Machado de Assis “O Alienista” e criar algo com um conto que escrevi em 2016.
Assim surgiu a história de um interno psiquiátrico que tenta romper o tédio da terapia criando um mundo, transita num mundo acessado por espelhos e tem sua aparência modificada nesse mundo.
Se há uma forma de descrever a direção de arte proposta para esse projeto está no dia a dia do Bom Fim, bairro de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
O Bom Fim é um bairro residencial da cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, afetado pela gentrificação entre os anos 60 e 80, próximo ao Campus Central da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e do Parque Farroupilha (Redenção).
Cercado por igrejas e sinagogas, é conhecido como reduto da cultura alternativa e intensa circulação de jovens nos seus cafés ou em direção as boates e bares da Cidade Baixa, outro conhecido bairro boêmio de Porto Alegre.
Roteirizado e dirigido por Boca Migotto, o documentário “Filme sobre um Bom Fim” (Epifania Filmes, 2015) situa a agitação cultural dos anos 80 no bairro e como o chamado ao novo ecoou em diversas capitais como Rio de Janeiro, Salvador e Brasília, reverberando na forma como se produziu música, cinema e arte a partir do movimento “Deu pra ti, anos 70”, inspirado no filme homônimo.
Figura 1: Equipe do filme “Deu pra Ti, Anos 70”. Fonte: Jornal Zero Hora

Revisitar a matriz de um movimento cultural de extrema importância, mas relegado ao ostracismo pelo tempo, foi uma das motivações em compor um projeto de arte inspirado na cultura jovem moderna que abarca elementos do clássico. Assim surgiu a ideia de criar um conceito de arte com inspiração na tribo urbana conhecida como hipster.
Em How to dress like, a stylist Gracie Mercedes conceitua esse movimento urbano dizendo que:
A cultura hipster é sobre gostar de coisas que uma pessoa média não gostaria. Estilo moderno é tudo sobre sair do normal, então qualquer coisa que pareça vintage ou velho é considerado hipster. (MERCEDES, 2012, apud RASMUSSEN et al, 2012, p. 18) Para Mark Greif, autor do livro What was the Hipster? A sociological investigation, um hipster pode ser definido como:
aquela pessoa que, sobrepondo-se à desistência intencional ou não intencionalmente, o indivíduo desclassificado — o novo boêmio, o vegan [vegetariano], o ciclista ou skate-punk, o candidato a vinte e poucos anos de colarinho azul [jovens artesão que se optam por não se submeter à condições empregatícias do mercado] ou pós-racial, o artista morto de fome ou estudante – que na verdade se alinha tanto com uma subcultura rebelde quanto com a classe dominante e, consequentemente, abre-se a uma conduta venenosa entre os dois. (GREIF, 2010, p 1 apud SANTOS, 2012 p. 2.) Indo um pouco mais além, Cláudia Pereira e Eduardo Jardim Sena sintetizam atmosfera hipster:
Em um cenário onde a identidade encontra-se ancorada nos hábitos de consumo (ou não consumo), os hispters agem dentro do campo cultural de forma a obter o conhecimento mais “virgem”, a opinião mais recente e revolucionária em uma batalha de afinidades que hierarquiza e categoriza os adeptos do movimento. Tal desejo por destaque cultural, intelectual e artístico compõe a força motriz do grupo, seu selo e capital simbólico. (PEREIRA e SENA, 2016 p. 109)
Figura 2: Festa hipster na Casa do Lado em Porto Alegre/RS, 2011. Fonte: Facebook.
Figura 3: Cena do filme Before Sunrise, 1995. Fonte: Google Imagens.

Figura 4: Hipsters. Fonte: Investigation of the Hipster.
Figura 5: Detalhes sobre os hipsters. Fonte: Google Imagens.
Voltando ao cenário que inspirou a arte do filme, o Bom Fim é um bairro pequeno, com poucas ruas e espremido entre o Independência, Centro, Rio Branco e Farroupilha. Parece sofrer de dupla personalidade já que, cortado pela Avenida Vasco da Gama (que próximo ao Centro se transforma em Rua Irmão José Otão) apresenta características diferentes: quanto mais próximo do bairro Independência, mais tradicional e conservador, quanto mais próximo da Avenida Osvaldo Aranha mais alternativo. Por conta também dessa característica que o Bom Fim é uma referência incontestável ao projeto de direção de arte do curta, já que a história dos personagens retrata exatamente a dualidade comportamental de um jovem interno num centro psiquiátrico.

Figura 6: Avenida Osvaldo Aranha, Porto Alegre/RS. Fonte: Google Imagens.
Figura 7: Rua Felipe Camarão, Porto Alegre/RS. Fonte: Google Sreeet View.
Mas nem só de mídia alternativa e porões em prédios condenados vive a história desse bairro portalegrense. O Bom Fim já foi retratado na mídia convencional.
Em 1993, o ator André Damasceno levava seu personagem Magro do Bonfa para a aclamada Escolinha do Professor Raimundo (Globo, 1990). O personagem era um estereótipo do morador do Bom Fim: sotaque carregado, trejeitos e gírias. Com o bordão

“não me faça pegar nojo”, o personagem descrevia situações inusitadas vividas por ele. O Magro do Bonfa era o único personagem da Escolinha, na época, que adotava um tipo especifico de um bairro, já que os outros personagens era descrições mais generalistas dos estados, como, por exemplo, o Gaúcho Gaudênio (Ivon Curi, 1991). A evidente importância do Bom Fim na cultura brasileira dos anos 80 e 90, dentre outras, foi a inclusão do jovem morador do bairro como personagem de um consagrado programa humorístico como a Escolinha do Professor Raimundo.
Figura 8: Professor Raimundo (Chico Anysio) e o Magro do Bonfa (André Damasceno), 1992. Fonte:
Google Imagens.
Figura 9: Gaúcho Gaudêncio (Ivon Curi), 1991. Fonte: Youtube.
Mas, por que a decisão de criar um projeto de direção de arte baseado num bairro especifico de Porto Alegre e transportá-lo para Cachoeira, uma cidade que já identidade cultural arraigada no inconsciente coletivo?

A resposta é menos pretensiosa do que a pergunta sugere. Um filme com roteiro experimental, personagens sem nome próprios e sugerindo um mundo fantástico criado na mente de um interno psiquiátrico é uma porta pedindo para ser aberta pela estranheza, pela fuga do convencionalismo estético e por uma ruptura de identidade urbana.
Em termos simples, a arte do filme simula um cartão postal de Porto Alegre transfigurado em universo imagético cinematográfico, com intuito de fugir da convencional exploração da visualidade histórica de Cachoeira.
Costumo pensar que a arte, em si, é um processo de emular realidades de acordo com a ambição do artista, logo, ter medo de fugir da narrativa pré-existente torna o processo de direção de arte um excelente exercício de quebra de paradigmas.
Foi a partir da ideia de cenografia alienígena ao espaço geográfico que o projeto de direção de arte foi firmado, coadunando com as intempéries existenciais dos personagens principais, vítimas do emolduramento comportamental em prol da socialmente comum.
Depois de falar sobre a importância do bairro Bom Fim na concepção visual do projeto de arte de NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE, é hora de falar um pouco sobre algumas outras influencias nas decisões desses projeto.
No roteiro, um festival de arte impressa acontece na área externa de um café. O personagem EU 1 conhece o personagem VOCÊ nesse ambiente durante a leitura de uma crônica. Para além da cenografia e figurinos, que serão descritos em seus respectivos tópicos, temos uma mistura de literatura de cordel com fanzines e artes gráficas impressas.
Misturar arte nordestina com elementos do punk inglês (o fanzine surgiu nos Estados Unidos na década de 30, mas teve seu ápice durante o movimento punk londrino na década de 70) é a caracterização da fusão de estilos e culturas tão defendida neste projeto.
Apesar de localização e motivações diferentes, o cordel e o fanzine são impressos lítero-artísticos que reproduzem elementos da cultura popular e se interligam pelo papel de resistência a opressões sociais dos grupos que os solidificaram no mundo das artes.
Criado o conceito de direção de arte do filme, existindo uma visualidade exequível e parâmetros para expandir o conceito, a necessidade de conectar os elementos encontrados com cenografia e figurino foram se afunilando e, enfim, o conceito foi transformado em projeto com elementos suficientes para condensar um mundo portalegrense no dia a dia de Cachoeira.
Figura 10: Detalhes da Rua Manoel Paulo Filho, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 11: Rua Manoel Paulo Filho, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal.

Figura 12: Casarões históricos em Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal.
Mas apenas essas informações, no caso o documentário “Filme sobre um Bom Fim” e memórias, eram ínfimas para compor um projeto concreto de direção de arte. Foi necessário fragmentar o processo em três partes: definir influências para a direção de arte,

que paleta de cores usar e quais as referências para composição da arte em torno dos personagens.
Cerca de dois anos coletando fotos, vídeos, filmes e séries, pesquisando significados das cores, como decisões de arte refletem na narrativa do filme e o que deveria ficar de fora foi a etapa seguinte do projeto de direção de arte. O bairro foi personificado, transportado para outra cidade, agora era preciso descrever artisticamente quem são e onde estão esses sujeitos.
1.1 – Influências na concepção do projeto de arte
A cena alternativa de Porto Alegre foi minguando com o tempo. O bairro foi mudando e se tornando área nobre, os bares e sala de cinema fechando um a um, restando bolsões de resistência e memória da era do ouro do Bom Fim enquanto reduto artístico jovem da cidade.
A fragmentação, o distanciamento dos artistas iniciantes dos mais experientes dificultou o surgimento de um movimento tão abrasivo quanto o dos anos 70 e 80: Porto Alegre envelheceu e se tornou uma cidade cada vez mais conservadora e avessa a concentrações de jovens. E, por conta disso, buscar novas influencias para o conceito de arte do projeto se tornou uma necessidade inversamente proporcional a disponibilidade de fontes de pesquisa: quanto mais dúvidas surgiam menos locais para conseguir informações.
O filme foi migrado para os dias atuais, mas o conceito de arte baseado num bairro gentrificado e com jovens hipsters circulando foi mantido.
Mas onde conseguir uma base de dados para compor um projeto de pesquisa de direção de arte que fosse abrangente o suficiente para manutenção do conceito já definido?
Foi assim que a pesquisa deu um salto no tempo e pousou no século XXI. As cidades de Cachoeira e Porto Alegre compartilham um momento em comum de jovens promovendo pequenas aglomerações em suas ruas, para desespero das populações locais que querem paz e tranquilidade nas noites.
Jovens vão às ruas para algo além de beber e protestar contra o sistema. Eles querem produzir arte com seus violões, canetas e câmeras de celulares. Tais registos foram tomando a internet de assalto em vlogs, blogs e plataformas de vídeo on demand numa velocidade tão grande quanto as modificações das tecnologias disponíveis.
O mundo foi ficando menor, as diferenças e semelhanças entre as cidades apresentadas de formas mais tangíveis e grupos de artistas passaram a se encontrar nas redes sociais com mais frequência. A era da superexposição se tornou predominante, frustrando os ideais hippies de união universal pela Era de Aquários.
O bairro Bom Fim, personificado e migrado para Cachoeira, segue a estrutura na qual foi criado para o projeto, mas precisava de uma dose de atualidade para não tornar a direção de arte obsoleta.
Foi nessa época que surgiu um filme ambientado em Porto Alegre, com ares de produção da Nouvelle Vague e firmando uma interlocução entre a cidade antiga e o espírito jovem de querer viver tudo o que for possível ao mesmo tempo. O filme serviu de insight criativo para o curta “NEM SEMPRE”.
Dirigido por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, “Tinta Bruta” (Vitrine Filmes, 2018) é um premiado filme em que um personagem vê sua renda diminuir vertiginosamente quando um rival começa a imitar seu show online, no qual ele se pinta com tinta neon em performances sensuais pagas. É basicamente um show ao vivo numa espécie de Only Fans focado para o público gay.
Figura 13: Cena do filme Tinta Bruta, 2018. Fonte: Vimeo.

Figura 14: Cena do filme Tinta Bruta, 2018. Fonte: Vimeo.
Figura 15 Cena do filme Tinta Bruta, 2018. Fonte: Vimeo.
A narrativa do filme não foi o ponto em comum com a ideia do projeto de arte escolhido para NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE, mas sim a paisagem jovem que ainda existe na combalida cena alternativa da capital gaúcha.
Ruas ocupadas com música e jovens discutindo sobre as trivialidades da vida, festas em apartamento com vizinhos reclamando são elementos que causam embates entre os jovens notívagos com a sociedade que os cercam. Cenas como essa são presenciadas em toda e qualquer cidade do mundo; são compartilhamento comum através de fotos em redes sociais e não serão excluídas do cotidiano da humanidade enquanto existirem jovens.

Mas Tinta Bruta, Pedro, vivido por Shico Menegat, sintetiza o alienígena excluído socialmente que busca num mundo fora de sua realidade uma forma de ser visto, admirado e remunerado. Quando seu alter ego Garoto Neon assume, um mundo é criado para comportar o personagem e seu eu artístico performático.
Um filtro azul na fotografia deixa o ambiente em tons de roxo e simula o efeito da luz negra num corpo pintado de tinta neon, tal qual algumas festas neon nas boates indies de Porto Alegre entre 2010 e 2012, regadas a techno e house music.
Figura 16: Cena do filme Tinta Bruta, 2018. Fonte: Vimeo.
O garoto solitário em um apartamento que parecia maior a cada dia, recebe a visita de um jovem que muda sua forma de ver o mundo, provocando uma cisão tão grande em sua personalidade que ele sucumbe aos seus instintos.
As semelhanças entre Garoto Neon e EU 2 são gritantes, e fazer uma referência ao filme Tinta Bruta no projeto de arte de NEM SEMPRE é tão natural quanto previsível.
A impossibilidade de viver tranquilamente num mundo que não comporta suas necessidades é a visão comum entre EU 2 e o Garoto Neon desde as pressões pessoais que estão sofrendo até a necessidade de se libertarem do mundo que os oprime. Enquanto um usa uma live sensual na internet, o outro desenha e escreve, mas ambos parecem estar no limite ou prontos para liberar muita energia negativa acumulada. Garoto Neon acaba sozinho no apartamento depois que sua irmã se muda para Salvador, já EU 2 está num fragmento de cidade que só existe para ele. O abandono persegue os dois.

Mas não é só a estranheza de transfigurar o Bom Fim de Porto Alegre que compõe a arte do projeto, há também uma tribo urbana que não dialoga com a persona cachoeirana.
O dia a dia de Cachoeira é comportado entre suas ruas estreitas e casas nos morros e zona rural. O tipo jovem comum que mora na cidade é composto por estudantes ou trabalhadores do comércio que vivem em torno de manifestações culturais centenárias como a Festa da Boa Morte, Festa d’Ajuda, São João e, mais recentemente, a FLICA (Feira Literária Internacional de Cachoeira).
Figura 17: Festa D'Ajuda, Cachoeira/BA. Fonte: Google Imagens.

Figura 18: São de Cachoeira/BA, 2016. Fonte: Google Imagens.
Figura 19: Cortejo da Festa da Boa Morte, Cachoeira/BA. Fonte: UFRB.
Durante essas festas a cidade é invadida por turistas do mundo todo e as ruas estreitas parecem ainda menores. Bares lotados, casas recebendo visitantes ficam lotadas e o ambiente se torna extremamente claustrofóbico. Falta locais de respiro até na orla da cidade que passa a comporta um estacionamento a céu aberto, misturado a barracas e palcos de shows.
Todo esse cenário caótico é a síntese perfeita da casa do personagem EU 2.

Apesar da decoração inspirada nos estilos escandinavo, minimalista e industrial, compondo peças restauradas do clássicas, linhas sólidas, figuras geométricas e composições feitas a partir de canos ou resto de materiais de construção. O conjunto desses estilos em um ambiente é o que podemos chamar de hipster.
Segundo a design Aline Matos (2020) o estilo escandinavo é caracterizado por cores neutras, sólidos geométricos e simplicidade, dando ao ambiente contorno de elegância e aconchego. Já o estilo minimalista, segundo Diogo Revollo (2018), gira em torno de decorações com poucos elementos decorativos, também cercado por cores neutras e sobriedade. Quanto ao estilo industrial, de acordo com Bianca Alves (2019), tem bases no rústico urbano, com exposição de canos e instalações elétricas, paredes sem pintura ou com alvenaria a mostra.
Figura 20: Estilo escandinavo. Fonte: Google Imagens.

Figura 21: Estilo minimalista. Fonte: Google Imagens.
Figura 22: Estilo industrial. Fonte: Google Imagens.
Hip (descolado ou inovador) era uma gíria em inglês dos anos 40. Ao associá-la a um estilo de vida adotado por pessoas que fogem do senso comum e tendências populares temos a síntese do que são indivíduos conhecidos como hipsters.

Colocando a palavra hipster no Google, homens com barba muito bem alinhada, pessoas vestindo roupas não muito convencionais e gatos humanoides de óculos escuros serão as principais imagens que tentarão exemplificar o que é um hipster.
Membros da classe média A e B, uma das principais caraterísticas de um membro da tribo hipster é a extravagância na mistura de roupas clássicas a elementos modernos.
Camisa xadrez com macacão jardineira e gravata borboleta. Chapéu coco, camisa gola marinheiro com saia plissada e tênis All Star. Comida vegana, móveis restaurados, andar de bicicleta ao invés do transporte público convencional. Ouvir The Thing Things em aparelhos toca disco ou fita cassete, não ter ou assistir TV, não comprar em maisons e abandonar qualquer elemento da cultura pop, estabelecimento comercial ou hábito social que entre no hype (algo que está sendo muito repercutido) ou no mainstream (senso comum).
No alto das suas calças skinny ou roupas xadrez, a cultura hipster é de caráter inovador e sempre acaba tendo suas características adotadas ou adaptadas por outras tribos.
O sertanejo universitário brasileiro atual e suas letras confessionais têm muito mais influência do rock pop e indie do que do country americano. Composições produzidas a partir de samples (amostra em inglês, mas no caso se refere a acordes inspirados em composições existentes) de bandas famosas ou do cenário alternativo, o visual que mistura referências do rock anos 80 com estilo indie e country estão presentes nas chamadas baladas sertanejas Brasil a fora, com traços comuns ao hipster.
Apesar da predominância do sertanejo universitário e suas vertentes, como a sofrência, no cenário cultural brasileiro, a direção de arte se fixou na tribo original, buscando no cenário hipster os elementos para concluir o projeto.
Temos um bairro portalegrense personificado, rock indie e hipsters numa cidade histórica compostas por ruas com casarões do período colonial e cultura interligada as lutas de negros e indígenas. Já estava estranho o suficiente, era chegada a hora de prosseguir para um ponto importante do projeto que é a escolha das cores.
1.2 – A paleta de cores
Um dos principais problemas enfrentados na escolha da paleta de cores foi como interligar o drama, a comédia e o suspense ao universo lúdico externo às idiossincrasias dos personagens.
A emulação de universos paralelos, abrangendo realidade e mente do personagem principal, não poderiam ser expostos sem a delicadeza que eles apresentam em todas as ações.
Sendo assim, o branco foi a primeira cor descartada da paleta do filme. Criar uma narrativa sobre personagens com problemas mentais ou realidades distópicas em ambientes excessivamente claros e com arte predominantemente em branco ou azul é utilizada em diversas produções.
A clássica cena em que THX 1138 (Robert Duvall) é isolado numa sala branca, Chirstina Aguilera, no clipe Fall in Line, aprisionada e obrigada a cantar ou a angelical Celestina (Dercy Gonçalves) no céu da novela Deus nos Acuda induzem, sem maiores sutilezas, o espectador enxergar uma realidade fantástica ou distópica com personagens isentos de pertencer ao mundo fora das telas.
Figura 23: Cena do filme THX 1138, 1971. Fonte: Google Imagens.

Figura 24: Cena do clipe Fall in Line, de Christina Aguilera, inspirado em THX 1138. Fonte: Youtube.
Figura 25: Cenas da novela Deus nos Acuda, 1992. Fonte: Google Imagens.

Três cores foram condizentes com os objetivos da arte em emular um mundo real sem perder as características do fantástico. Assim, a paleta foi reduzida a amarelo, roxo e coral.
Figura 26: Paleta de cores do filme. Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 27: Marca do filme. Criação: Flávio Reis, edição: Benicio Lira. Fonte: Arquivo pessoal.
O azul é uma cor que só deverá aparecer no figurino de EU 1 ou em embalagens de produtos. O objetivo é evitar ao máximo que a cor apareça no filme, para que as cenas em que EU 1 seja o personagem de destaque demonstre que ele não pertence àquele mundo.

1.2.1 – Amarelo
O amarelo é uma das cores que eu mais evito usar nas marcas e artes finais que crio. Peças de roupas são tão poucas que não consigo lembrar de nenhuma peça com importância para me contradizer. Em suma: eu não gosto de coisas em amarelo.
Resisti enquanto pude a escolha dessa cor, mas, no final, não tinha outra que fosse mais adequada ao ímpeto do personagem EU 2.
Em seu livro Decoração e Design de Interiores: Teoria das Cores, Ana Maria Rambauske diz que “Negação da luz, o negro exalta a luz; ele permite obter os melhores contrastes.”. (RAMBAUSKE, 2013, p.137)
Para não criar um visual poluído ou exagerado para o personagem, usei o preto como cor de realce ao amarelo. Na narrativa o preto não tem qualquer significado maior do que servir de contorno para as peças do figurino em amarelo, logo, não vi a necessidade de incluir o preto como parte da paleta de cores de EU 2.
A sofrível decisão de escolher o amarelo tem respaldo nas diversas pesquisas sobre personagens disfuncionais, com distúrbios mentais ou em ambientações que confrontam realidade objetiva com o fantástico.
Tarantino abusa do amarelo em Kill Bill (2004) para situar a personagem Beatrix Kiddo (Uma Thurman) num obsessivo jogo de vingança contra seu ex-noivo Bill.
Em artigo para a Intercom, Ana Beatriz Taube Stamato, Gabriela Staffa e Julia Piccolo Von Zeidler dizem que:
Kill Bill, de Quentin Tarantino, também é um filme de referências fantásticas dadas a partir da cor. O amarelo é entendido como a cor básica do filme, e encontrado em quase todas as cenas, destacando-se pelo figurino e objetos de Beatrix, a personagem principal. Sua roupa é amarela, sua moto é amarela, o carro utilizado quando ela sai do hospital também é amarelo. O excesso dessa cor motiva-se por simbolizar a vingança para os orientais, sentimento que resume o filme. Essa cor também se associa ao ciúme, egoísmo, esperança, expectativa e ao ódio. (STAMATO, STAFFA e VON ZEIDLER, 2013, p. 9)
Figura 28: Cenas do filme Kill Bill, 2003. Fonte: Google Imagens.
Com ares de ninja ocidental, usando uma espada para promover vingança e justiça, Beatrix usa um marcante macacão amarelo com listra lateral preta. Os acontecimentos são repletos de referências produções asiáticas como Os Sete Samurais e a filmes Western dos anos 60, logo, o uso do amarelo sustenta o tom cartunesco e absurdo na narrativa do filme.
Figura 29: Cenas do filme O Iluminado, 1980. Fonte: Google Imagens.
O corredor do filme O Iluminado (Kubrick, 1980) com as aterrorizantes gêmeas no final, o complexo emaranhado de tramas envolvendo viagens no tempo na série Dark

(Ronny Schalk, Jantje Friese, 2017), drama e violência condensados no dia a dia das prisioneiras de Vis a Vis (Álex Pina, 2015) e o romance com ares trágicos de Moonrise Kingdom fazem uso do amarelo para ratificar as emoções disfuncionais dos personagens e a incapacidade de interação com o mundo que os cerca. Todos os personagens parecem deslocados emocionalmente e afetados pela pressão exercida sobre eles, expelindo distúrbios mentais diversos como fobia, obsessão e instinto assassino transmitidos nuances além da narrativa óbvia causada pelo incidente incitante de cada obra.
Figura 30: Cena da série Dark, 2017. Fonte: Google Imagens
Figura 31: Cena da série Vis a Vis, 2015. Fonte: Google Imagens

Figura 32: Cena do filme Moonrise Kingdom, 2012. Fonte: Google Imagens.
1.2.2 – Roxo
Materializar sonhos e ligar o mundo real ao mundo da fantasia são algumas das funções atribuídas ao roxo na direção de arte de projetos audiovisuais.
No círculo cromático o roxo é a cor oposta ao amarelo e sua utilização no filme reflete a oposição das personalidades de EU 2 e VOCÊ.
A cor é muito utilizada para compor cenografia de produções audiovisuais ambientadas em realidades fantásticas, personagens ligados ao mundo onírico ou situações extremas e violentas.

Figura 33: Círculo cromático. Fonte: Google Imagens
Além de ter um apelo ao fantástico, o roxo é uma cor fria associada a magia. Segundo a designer Amanda Barata, do site de decoração e estilo Tua Casa, podemos dizer que:
A cor roxa tem ligação direta com o mundo místico e espiritual, e simboliza magia e mistério. Transmite sensações de criatividade e calma, sendo apropriada para lugares que necessitem desse tipo de energia. Historicamente usada por algumas religiões, o roxo tem forte ligação a locais de meditação e eleva a intuição espiritual. Recomenda-se o uso em quartos infantis e escritórios, devido às sensações transmitidas. (BARATA, Thanos, vilão roxo das revistinhas e filmes dos Vingadores (Marvel, 2012 a 2019), buscava joias do infinito com o intuito de destruir metade dos seres vivos em todo o universo. Seis joias de cores diferentes, dentre elas a do poder era roxa que concede ao portador invulnerabilidade e energia capaz de destruir sistemas estrelares.
Ainda na Marvel, Os Guardiões da Galáxia (Marvel, 2014) se apoderam da joia do poder e usam para destruir um enviado de Thanos que buscava a gema.

Figura 34: Thanos em filmes da Marvel. Fonte: Google Imagens.
Figura 35: Cenas do filme Guardiões das Galáxias, 2014. Fonte: Google Imagens
David Haller, um poderoso mutante da Marvel foi apresentado ao audiovisual na série Legion (2017) do canal FX. Capaz de criar realidades e mundos com o poder da mente, David era mantido em um hospital psiquiátrico e monitorado por órgãos do governo americano. Diagnosticado com esquizofrenia e possuído por um mutante parasita com corpo etéreo que se materializava em uma interna que seguia David para todos os lados, o jovem consegue recuperar a memória e sanidade, passando a usar seus poderes sem as travas impostas pelos remédios.

Figura 36: Cenas da série Legion, 2017. Fonte: Google Imagens.
Tratando de temas espinhosos como racismo e violência sexual, o filme The Color Purple (1985) tem, para além do roxo, utilização da cor em cenas que evocam esperança em meio ao caos que a personagem principal vive.
Figura 37: Cenas do filme The Color Purple, 1985. Fomte: Google Imagens.
Emulando uma realidade fantástica, mesmo não sendo parte do mundo dos superheróis, o filme Color Out of Space (2020) usa e abusa da família de cores do roxo para contar a história de um organismo que infecta corpo e mente. Críticas a mise-en-scène e fábula à parte, o filme simula um mundo infectado e sem esperança, com a possibilidade de destruição da humanidade.

Figura 38: Cena do filme Color Out of Space, 2020. Fonte: Google Imagens.
1.2.3 – Coral
As chamadas candy colors (cores doces) produzem sensação de delicadeza e inocência. Por essa razão foi escolhida para compor peças do figurino de VOCÊ e elementos de arte do cenário do café e do gramado da clínica.

O coral é uma muito utilizada por decoradores e no mundo da moda, mas sua função no cinema ainda é relegada a sutis participações genéricas na cenografia ou figurinos, passando quase despercebida.
Por se tratar de uma cor vibrante, obtida a partir da mistura de vermelho, rosa e laranja, o coral é uma cor quente e suave que ameniza tons neutros, mas com uma visualidade delicada e convidativa.
Em postagem do site Tua Casa, a designer Katharina Barkmeyer sintetiza a cor ao dizer que:
O coral concede uma atmosfera mais descontraída ao ambiente, simbolizando alegria e espontaneidade. A cor coral passa uma sensação de otimismo através de sua característica suave. Marcada por uma cor mais aberta, a tonalidade é um chamado para o bem-estar. (Barkmeyer, 2020) Combinado com o roxo temos uma paleta de cores dedicada a transmitir o lado sonhador e inocente de VOCÊ, frente a impetuosidade de EU 2, personagem absorvido pelo amarelo.
Quanto ao uso da cor em objetos no cenário do evento de arte e da clínica, é uma forma de atribuir ao local à sensação de bem-estar vividas pelos personagens ao disfrutar de um mundo onde a arte pode ser sentida e criada, de acordo com as expectativas de cada um. A ideia foi de um contraponto ao amarelo e neutralização da invasiva personalidade de EU 2, sem causar prejuízo a sua importância nas cenas em que ele está subjugado ao ambiente.
A pesquisa de direção de arte concluiu que a cor possui pouca incidência em poucas produções cinematográficas de forma significativa na narrativa.
Grande Hotel Budapeste exibe uma fachada delicada no meio de uma floresta conífera. A história é uma dramédia recheada de situações cômicas e, internamente, o alto contraste e cores quentes reforça o mundo fantástico que envolve os dois personagens principais. O uso de uma variação de coral na fachada provoca a sensação de que estamos vendo uma casa de boneca gigante.
Figura 39: Cena do filme The Grand Budapest Hotel, 2014. Fonte: ArchyDaily.
Obsessivo por destruir coisas, o personagem Davis Mitchell (Jake Gyllenhaal) transita em um ambiente monótono e depressivo no filme Demolition (2015). A cor produz um efeito diferente do habitual que é criar ambientes cálidos e receptivos.
Figura 40: Cena do filme Demolition, 2016. Fonte: Google Imagens.

1.3 – Os personagens e suas referências
Com a paleta de cores definida e o universo dos personagens mais claro, a pesquisa tentou encontrar em celebridades um perfil estético que se adequasse a proposta da arte.
EU 2 encontrou na figura dos atores Ícaro Silva e Sergio Malheiros parâmetros ideais para formulação de um personagem negro com estilo hipster. Os atores brasileiros e seus personagens possuem registros interessantes de composição de figurinos.
Figura 41: ícaro Silva, ator. Fonte: Google Imagens.

Figura 42: Sérgio Malheiros, ator. Fonte: Google Imagens.
Já o personagem VOCÊ teve a pesquisa inicial de estilo nas referências encontrados do cantor pop inglês Zayn Malik. Com aparência frágil e agradável, o cantor serviu de base na pesquisa inicial, mas em sua fase adolescente quando era componente da banda One Direction.
Figura 43: Zayn Malik, cantor. Fonte: Google Imagens.
O personagem EU 1 foi pensado a partir de fotos do cantor brasileiro Tiago Iorc. Registros do cantor com cabelo desgrenhado e olhos esbugalhados foram a referência perfeita para nortear as pesquisas iniciais sobre o personagem.

Figura 44: Tiago Iorc, cantor. Fonte: Google Imagens.
O trabalho de composição de arte dos personagens buscou em elementos da cultura pop uma visualidade moderna e despojada. Se fosse ambientada nos anos 90/2000, a arte do filme seria toda referenciada pelo conceito jovem da MTV Brasil, mas devo dizer que o canal de televisão tem sim um papel fundamental na criação do conceito central da arte que é o jovem urbano de classe média e obcecado por fugir dos padrões sociais.
Figura 45: VJs anos 90 e 2000 da MTV Brasil. Fonte: Google Imagens.
O conceito visual dos personagens foi aprofundado a partir de ligação entre visualidade pretendida e parâmetros abordados em pesquisas sobre hipsters disponíveis na internet.
1.3.1 – Eu 2
Um jovem negro, cabelos curtos, magro e com idade entre 22 e 26 anos é o personagem principal de NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE.

Segundo a descrição do personagem no roteiro, EU 2 é um jovem impetuoso, irreverente, mas, com tendências antissociais. Ele fica fascinado pela timidez de VOCÊ lendo sua crônica e sendo ignorado pelo público presente e resolve se aproximar do jovem escritor.
Encontrar na cultura pop jovens antissociais e impetuosos não é uma tarefa muito difícil. Na era de ouro de Hollywood, James Dean era a expressão da juventude vivendo ao extremo os prazeres da vida. Seus filmes exalam a busca por espaço num mundo que ignora seus apelos, ao mesmo tempo que compõem um retrato vigoroso da sociedade americana em recortes no tempo/espaço, ratificando a invisibilização dos jovens.
Figura 46: James Dean, ator. Fonte: Google Imagens.
Indo para a década de 90, o líder da banda Nirvana, Kurt Cobain, usou sua voz esganiçada e acordes de guitarra para gritar ao mundo que jovens sofrem e precisam ser ouvidos. Membro de um movimento artístico que eclodiu pelas ruas de Seattle, o grunge transitava entre uma estética visual que misturava referências do punk com a vida no campo. A banda se desfez depois da morte de Kurt, mas seu legado com músicas confessionais e melodia que vão do rock ao country, resiste ao tempo e se mantem relevante mais de três décadas depois do seu fim. O estilo grunge é, ainda hoje, parte importante da cultura alternativa em diversas regiões do mundo, e, acabou se fundindo a outro estilo urbano, o hipster.

Figura 47: Kurt Cobain, músico. Fonte: Google Imagens.
Nos dias atuais, para fins de registro se tratam dos anos 20 do século 21, na série Elite (Netflix 2018) a imagem angelical e complemente voluptuosa do personagem Valerio Montesinos (vivido por Jorge López) é um retrato dos excessos que dominam o cenário jovem mundial. Abusando da sensualidade para conquistar bebidas, drogas e sexo, o jovem é uma contradição ambulante, já que vive um romance secreto com a meia irmã Lucrecia Montesinos (Danna Paola), ao mesmo tempo que mantem um relacionamento a três com Polo Villada (Álvaro Rico) e Cayetana Pando (Georgina Amorós)
A arte encontra em EU 2 um receptáculo cheio de ímpeto e disposto a viver cada segundo como parte de uma poesia a ser capturada em uma tela, ou por uma câmera. Os rompantes do personagem, bem como sua sala repleta de materiais e obras artísticas, sugerem alguém que usa a arte como expressão de um mundo interior dividido entre o estar vivo e a buscar por querer ser completo. O dualismo presente em suas ações ao buscar companhia, mas não conversar com as pessoas a sua volta, é o estereótipo do gênio artístico que precisa do auto conflito como força motivadora de suas criações.

Figura 48: Valerio Montesinos (Jorge López), Elite, 2019. Fonte: Google Imagens
Tal qual Simão Bacamarte de O Alienista (Machado de Assis, 1882), a visão de um mundo doente e precisando ser condenado ao isolamento cria em EU 2 nuances taciturnas. Enquanto luta para se distanciar da loucura que envolve o mundo, o médico descobre em si o mal que ele atribuía aos outros. A obsessão pela loucura levou Simão interna a cidade num hospício, até que ele percebe que a normalidade em ser o único são é o maior sinal de loucura que alguém pode apresentar.
Sendo ele a personificação do id de EU 1, paciente internado em uma clínica psiquiátrica, seus distúrbios mentais são expelidos em forma de arte. Ele é um alienígena refugiado em uma cidade que não comporta seu conceito de mundo. Complemente imerso na cultura alternativa de Porto Alegre, EU 2 vive em Cachoeira, cidade com traços arquitetônicos do Brasil colônia e tradicional reduto do samba de roda.
A população de Cachoeira possui um estilo urbano despojado, roupas leves e informais. O verão é tão quente quanto o de Porto Alegre, mas o inverno não chega nem perto do frio que faz na capital gaúcha.

Figura 49: Feira de Agricultura Quilombola, Cachoeira/BA. Fonte: Humana Brasil.
Nesse contexto, uma pessoa com roupas mais pesadas e estilo mais próximo do rock não passa despercebido, causando estranheza. Assim, temos a principal característica de EU 2: ele não se adequa a paisagem urbana na qual vive, e, se aproxima de um personagem extraído das páginas de uma revista música.
Dentro da mitologia das cores no audiovisual, o amarelo é descrito como provocador de sensações de liberdade mental irrestrita. Logo, a cor descreve exatamente para o personagem forte, com traços obsessivos e loucura aparente que ganha vida através da mente de um interno psiquiátrico.
1.3.2 – Você
Um jovem magro, pele clara, estatura mediana, cabelos curtos e idade entre 22 e 25 anos.
O rapaz aparenta ser um escrito iniciante tímido querendo testar suas habilidades com a escrito lendo uma crônica durante um evento de arte. Ao criar coragem, entrar e começar a ler, percebe que apenas uma pessoa presta atenção a sua desengonçada leitura.
O ser humano frágil e deslocado é personagem constante em comédias românticas e dramas adolescentes, mas poucos serviram de referências para composição do personagem VOCÊ.
Cada dia mais distante, o ano de 1995 trouxe ao mundo a história de uma garota rica e mimada que sofre uma crise de realidade ao se apaixonar pelo filho da ex-madrasta.
Clueless (Amy Heckerling, 1995), conhecido no Brasil como As Patricinhas de Beverly Hills traz Alicia Silverstone como a riquinha Cher Horowitz e seus problemas de

gente rica ao não saber decidir qual roupa vestir, por que não consegue tirar a carteira de motorista e o que irá fazer no final de semana.
Mas VOCÊ não é uma representação da popular Cher, mas sim da desengonçada Tai Frasier vivida por Brittany Murphy.
Figura 50: Tai Frasier (Brittany Murphy), Clueless, 1995. Fonte: Google Imagens.
Perdida na paisagem, ignorada pelos colegas e com um visual destoante do resto dos jovens ricos e populares da escola, Tai acaba sendo adotada por Cher e sua vida começa a mudar. Não só se torna popular como também descobre o amor e engata um relacionamento com o skatista Travis, vivido por Breckin Meyer.
Tai é a síntese do adolescente deslocado em um mundo novo, com uma doçura e ingenuidade tão gritante que é impossível não se apaixonar à primeira vista e querer protegê-la do mundo hostil à sua volta.
VOCÊ entra num ambiente hostil que ignora sua presença, seu grito por ser ouvido e seu texto confessando o quão invisível se sente em relação ao mundo. Crédulo e atrapalhado, se vê preso em uma situação constrangedora, mas prefere seguir lendo o texto até o fim.
Outra personagem que tem semelhanças com VOCÊ é Elle Evans, vivida por Joey King em A Barraca do Beijo (Vince Marcello, 2018) muito mais pela relação com seu amigo Lee Flynn, personagem vivido por Joel Courtney do que o romance com Noah Flynn, vivido por Jacob Elordi.
O filme me causa sensação de que há sérios problemas narrativos, soluções fáceis e preguiçosas para descrever a relação do casal principal e um uma construção que deteriora a amizade de Elle e Lee com um ciúme descabido e sem motivo.

Figura 51: Elle Evans( Joey King), A Barraca do Beijo, 2018. Fonte: Google Imagens.
Mas, mesmo assim, sinto que a trama de uma comédia romântica envolvendo amigos do sexo oposto, sem interesse sexual um no outro e que se divertem juntos exatamente como faziam desde crianças serve de referência para o projeto de arte do personagem VOCÊ.
O personagem precisa se apresentar como alguém doce, crédulo e inteligência emocional aguçada. Ele é a representação do sensível, mas ao mesmo tempo é uma lembrança de EU 1, o personagem que dá vida ao mundo em que EU 2 e VOCÊ estão. O roteiro sugere que a internação de EU 1 se deu por ter matado VOCÊ, logo, a aparição do personagem é algo místico e só possível a partir do amor e culpa que EU 1 sente pelo amigo que ele matou e acabou sendo internado.
Para além do cinema, a música Creepy, da banda Radiohead também compõe o universo de VOCÊ.
A letra descreve uma pessoa atormentada pela incapacidade de se adequar ao mundo a sua volta por se sentir uma aberração. Enquanto tenta utilizar palavras de apoio para outra pessoa, ressaltando as boas qualidades dessa pessoa enquanto se autodeprecia.
VOCÊ é um emaranhado complexo de expectativas e ansiedades numa embalagem frágil que pode se quebrar a qualquer momento. Ele é ignorado pelos frequentadores do café, ofendido por EU 2 no banheiro, denotando o gritante desespero por aceitação em todas as cenas do personagem.

Figura 52: Creep, banda Radiohead, 1992. Fonte: Youtube.
Outra nuance para demonstrar o distanciamento emocional entre EU 2 e VOCÊ é que eles são caracterizados por cores oposta no círculo cromático: amarelo e roxo. Apesar de serem cores complementares estão diametralmente opostas no círculo cromático, e, por esse motivo, quis enfatizar a oposição emocional que, ao mesmo tempo, torna os personagens complementares em suas narrativas.
A ingenuidade quase pueril do personagem é ratificada com seu visual composto por peças em tons de roxo e coral, na busca por identifica-lo como uma pessoa sonhadora, otimista que busca aceitação e fugir da solidão.
1.3.3 – Eu 1
O roteiro descreve EU 1 como um jovem branco, magro e aparentando entre 22 e 25 anos. As aparições do personagem vão deixando claro, aos poucos, que ele e EU 2 dividem o mesmo espaço ou são a mesma pessoa.
Fora a apresentação do personagem, que ele sai do banheiro com a mesma toalha que EU 2, as aparições seguintes sugerem o personagem como um espectro e então a arte decidiu deixar seu visual fantasmagórico inspirado em Kayako Saeki vivida por Junko Bailey no remake americano de O Grito – origens (Nicolas Pesce, 2020).
Trajado apenas com uma túnica hospitalar azul, cabelos longos e sem pentear, olheiras e pés descalços, VOCÊ terá a função de complementar a estranha relação entre EU 2 e VOCÊ.

Figura 53: Kayako Saeki (Junko Bailey), remake americano de O Grito, 2020. Fonte: Google Imagens.
O personagem tem pouquíssimas falas e sua relevância na narrativa é de quebrar a aparente normalidade na vida do personagem EU 2.
A cor escolhida para o personagem, o azul, deixa ainda mais evidente seu desligamento com a paisagem fílmica e deixa claro que não se trata de uma presença convencional.
Vivido por Dan Stevens, o personagem David Haller da série Legion (FX, 2017) possui a habilidade de criar e destruir a realidade de acordo com suas vontades. Ele é aprisionado num hospital psiquiátrico e monitorado por agências do governo americano. Essa capacidade de alterar a realidade, enquanto seu corpo é co-habitado por um mutante que tenta dominar seus poderes, David não consegue discernir realidade e sonhos e acredita sofrer de esquizofrenia.
David é semelhante à de VOCÊ e serve de base para composição do personagem mais pela referência na premissa dramática do que em sua visualidade.
Outro personagem que, assim como David, serviu de referência, a partir de seu arco dramático, foi Malcolm Rivers, vivido por Pruitt Taylor Vince no filme Identidade (James Mangold, 2003). Enquanto é transferido para receber atendimento médico, as múltiplas personalidades do sociopata Malcolm coabitam no mesmo universo, enquanto são misteriosamente mortas.

EU 1 é o assassino que matou o amigo e agora está em tratamento psiquiátrico, mas sua mente tenta se libertar de suas memórias e da vida ao mundo em que esse amigo está vivo e ele pode ser uma outra pessoa.
Figura 54: David sendo atacado pelo Rei das Sombras e perdendo o controle de seus poderes na série
Legion, 2017. Fonte: Google Imagens.
Figura 55: Malcolm Rivers e suas personalidades no filme Identidade, 2003. Fonte: Google Imagens.
2 – O MUNDO DOS PERSONAGENS ATRAVÉS DA CENOGRAFIA
Uma parede de chroma key posteriormente editada e transformada na mais incrível paisagem real ou imaginária, uma cidade inteira construída apenas para contar a história de uma produção ou o aluguel de ambientes reais são formas que a cenografia constrói a narrativa no espaço para situar personagens e espectadores na história.

Figura 56: o milagre dos efeitos especiais. Fonte: Observatório de Tendências Digitais da PUCPR.
Cenários precisam estar adequados à narrativa e tom do filme, mas também para familiarizar o espectador com as condições vividas pelo personagem. É pouco provável que o espectador ache verossímil cenas de litoral em Belo Horizonte ou neve em Salvador se a história do filme, série ou novela não prepará-lo para tais situações. E foi esse um dos momentos mais críticos do projeto de direção de arte.
A fábula do filme é contada em terceira pessoa por um narrador oculto que manipula as expectativas do espectador em torno de uma história singela e a converte em drama existencial de um assassino arrependido e assombrado por seu crime.
Como transcrever visualidade da cena em objetos simbológicos que caracterizam as emoções e dos personagens?
A conclusão foi criar um universo hipster em Cachoeira/BA como forma de evidenciar o afastamento dos personagens da realidade comum da cidade, logo, todos os elementos da cenografia foram pensados para causar um pouco da estranheza e não pertencimento dos personagens à realidade que os cercam.
Em conversa com outros membros da equipe do projeto, decidimos algumas locações do filme e os aspectos e as motivações das escolhas.
A cena do bar foi conversada a exaustão com a diretora de produção Andressa Almeida. Numa determinada noite, andando pela Rua 25 de Junho, em Cachoeira, o Bistrô e Hostel Casa de Avany me chamou atenção por parede de tijolo exposto e decoração retro. Ao entrar descobri que o local tinha uma área externa, sendo o cenário perfeito para algumas cenas importantes do filme.

A decoração parecia ter sido produzida com objetivo de transformar o lugar num cenário de produto audiovisual. Disposição de objetos, equilíbrio das cores e uma organização visual extremamente agradável sintetizavam muito bem as necessidades que buscava, e fui apoiado pela equipe. Andressa achou o lugar ideal para ser a locação que situa boa parte da trama do filme e conseguimos autorização dos proprietários para gravar nas áreas interna e externa, podendo fazer as modificações necessárias para adequar o estabelecimento às necessidades e decisões da arte.
Figura 57: Bistrô Casa de Avany, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal.

Figura 58: Salão do bistrô Casa de Avany, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal.
A área externa parecia ter sido projetada especialmente para o filme, porque todos os elementos descritos no roteiro e pensados pela arte estavam naquele ambiente.
Um muro coberto por madeira, um palco e dimensões que adequadas para alocar decoração, equipe técnica e elenco sem maiores problemas. Não estávamos esperando uma pandemia mundial, então tudo o que a gente queria é colocar o máximo possível de pessoas em torno dos personagens EU 2 e VOCÊ.
Figura 59: área externa do bistrô Casa de Avany, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal.

Figura 60: Palco na área externa do bistrô Casa de Avany, Cachoeira/BA. Fonte: Arquivo pessoal.
2.1 – A casa
Algumas das principais cenas do filme são ambientadas na casa do personagem EU e, por isso, houve uma necessidade maior de criar uma cenografia com maior número de elementos.
Descrita no roteiro como um ambiente amplo, bem iluminado e com poucos móveis, a sala é, na verdade, uma projeção mental do personagem.
Figura 61: exemplo de ambiente em tom de amarelo. Fonte: Google Imagens.

A sala de terapia ocupacional, espaço muito comum em clínicas psiquiátricas, é onde o personagem acredita ser a sala de sua casa, e, se negando a entrar no quarto, dorme nessa sala em meio a materiais e obras de arte espalhadas, num tapete de retalhos ou sobre um divã.
O conto que deu origem ao roteiro diz que o personagem dormia enrolado em coberto verde musgo, cor que será seguida pela direção de arte mesmo não fazendo parte da paleta de cores, que seguira o padrão amarelo com alguns elementos em roxo.
Uma mesa madeira, feita de carretel de fio, um abajur feito a partir de um manequim de loja, além de móveis e eletrodomésticos tradicionais, modificados a parte de técnica de envelopamento, que consiste em forra com vinil adesivo a superfície dos objetos. Nas paredes da casa inúmeros impressos de desenhos e colagens, dispostos em molduras.
Uma tela com o contorno do rosto de um jovem, colado com tecido na fotografia da qual o contorno serviu de modelo está rasgada e preparada para ser transformada em um quebra-cabeça alternando pedaços da fotografia e pedaços de tecido, formando uma obra de arte fragmentada.
Figura 62: Exemplo de quadro com recortes de fotografias e tecidos. Fonte: Arquivo pessoal.

Na cozinha temos eletroeletrônicos comuns em tons de amarelo, uma mini horta vertical e uma geladeira envelopada com estampa de cabine telefônica inglesa, único objeto cenográfico em vermelho a ser produzido pela direção de arte.
E finalizando a casa, o cenário do banheiro terá um espelho armário, cachepots e prateleira suspensa de macramê.
Figura 63: Objetos de decoração da cozinha. Fonte: Google Imagens.
Figura 64: Objetos de decoração da sala. Fonte: Google Imagens.

Figura 65: Objetos de decoração da sala. Fonte: Google Imagens.

2.2 – O café
Na área externa do pub em que Dúbio e Indeciso conversavam funciona um café no qual está acontecendo um evento de arte impressa.
É nessa locação que acontece o evento de arte, EU 2 e VOCÊ se conhecem e inúmeros figurantes circulam, bebem, trocam artes e comem. A arte precisa criar uma atmosfera acolhedora e ao mesmo tempo deixe implícito que se trata de mundo fantástico.
Do ponto de vista da direção de arte, a cena é a mais complexa por envolver inúmeros adereços para compor o cenário. Além das mesas dos clientes do café é preciso criar um balcão, um palco e distribuir as artes imprensas sem causar poluição visual ou prejuízos a direção de fotografia e iluminação.
Mesas de madeiras comuns de bares serão decoradas com uma luminária de cimento, um jarro e um menu em formato de roda gigante.
A luminária escolhida é uma peça feita de cimento em molde de papelão com um vão no meio onde é colocada a instalação elétrica para a lâmpada de filamento de carbono. O ideal é deixar a peça o mais delicado possível e pintada em tons de coral.
Os jarros foram produzidos com estrutura de papelão coberto com papel craft e, posteriormente, massa corrida. Depois de lixado foi pitando com tinta látex. Foram produzidos jarros para o filme entre os meses de março e setembro de 2020.
Para quebrar o estilo convencional de apresentar os produtos do café, optei por um álbum de fotografias em formato de roda gigante de papelão, com motor de giro a bateria e imagens dos produtos em combo, já que a peça comporta entre seis e oito molduras de foto.
Além de cerveja artesanal, os clientes poderão fazer pedidos de alimentos pouco comuns no dia a dia, sendo que as bebidas serão servidas em copos do tipo mason jar ou em garrafas em formato de lâmpada, comidas em tamanho pequeno (comumente conhecido como finger food) servidas em bandejas de madeira do tipo caixa de correspondência de escritórios.
Buscamos alguns exemplos de comidas servidas em estabelecimentos hipster com destaque para o sorvete de mesa, pães coloridos e sorvete preto, que podem ser substituídos, no decorrer da gravação por peças cenográficas.
Para expor as artes imprensas, decidi coloca-las em varais com pregadores de led, contornados por fios fada led, origamis coloridos, flores e fitas de papel crepom espalhados pelas paredes do café.
Também nas paredes do café serão colocados cachepots triangulares de tamanhos diferentes, produzidos com mesma técnica dos jarros, decorados com plantas artificiais e fios fada led.
No palco, além dos equipamentos de som (tripé, microfone e caixa amplificadora), uma cortina de led no fundo e uma luminária de chão de 1,2m de altura feita com a mesma técnica dos jarros e cachepots. Nas paredes em volta do palco algumas artes imprensas emolduradas e um banner com o nome do evento.
Seguindo os padrões da área do café, o banheiro vai ser decorado com vasos de papelão semelhantes aos jarros das mesas, cachepots suspensos de macramê, prateleira suspensa de macramê e kit banheiro de cinema, feito com a mesma técnica da luminária.
Figura 66: Varal de luz led. Fonte: Shopee.
Figura 67: Literatura de cordel. Fonte: Google Imagens.

Figura 68: Vomitório Zine, Caxias do Sul/RS. Fonte: Google Imagens.
Figura 69: jarros feitos à base de papelão.

Figura 70: processo de produção dos jarros de papelão. Fonte: Arquivo pessoal.

Figura 71: Vetores para decoração das paredes

Figura 72: Vetores para decoração das paredes.

Figura 73: Vetores para decoração das paredes.

2.3 – A clínica
O gramado é o ponto de virada para o personagem que começa a perceber que o mundo no qual habita não é real. A sala da casa se transforma no gramado, que é uma sala de terapia ocupacional e terá os mesmos objetos da sala da casa de EU dispostos de forma semelhante ao primeiro cenário.
Um espelho grande o suficiente para ser carregado por duas pessoas, lençol branco ensanguentado cobrindo um copo, medicamentos, seringas, e uma vela acesa e ataduras próximas ao corpo são os objetos que estarão na cena, mas que não estavam no cenário da casa.
Já o banheiro da clínica será o mais simples e sem decoração especial possível, sendo que frascos de medicamentos, comprimidos e sangues falsos estarão espalhados pelo chão.
Essa é mais uma locação aprovada pela equipe do filme e que foi possível fotografar antes da pandemia.
O prédio administrativo da UFRB, na rua Ana Neri em Cachoeira, tem um espaço com uma visualidade cênica que chama a atenção. Um amplo gramado cercado por muros e arbustos.
Figura 74: Gramado do prédio Ana Neri, UFRB - Cachoeira/BA. Fonte: Google Imagens.

Figura 75: Gramado do prédio Ana Neri, UFRB - Cachoeira/BA. Fonte: Google Imagens.

3 – O MUNDO DOS PERSONANGENS ATRAVÉS DOS FIGURINOS
Adequar o arco dramático dos personagens aos figurinos foi um desafio a parte para construir a arte do filme. Era preciso um diálogo entre a história aparente e as entrelinhas com muita sutileza para não conduzir o entendimento dos personagens. Roupas e assessórios precisam gritar as nuances emocionais de cada personagem.
Ao citar Francisleth Pereira Battisti em sua dissertação A Influência da Moda no Cinema, Danny Rocha Marques expressa a importância do figurino tanto na mitologia do personagem quanto na estrutura narrativa acolhida e seguida pela direção do filme:
O figurino vem carregado de certa concepção estética, das escolhas cênicas do criador e sua equipe. O vestir e o despir do performer permite criar uma familiaridade com a roupa e esta se torna sua segunda pele ou a própria pele. Cada vez que ele veste e despe seu figurino passa a ter mais conectividade com o mesmo e com a obra, porque as impressões criadas estão gravadas no figurino, tal qual na sua pele, que abre passagem para entrar e sair daquele mundo que se criou, ou seja, a obra artística. O ator, ao vestir seu figurino, acessa mais intimamente o seu personagem a obra artística; e inversamente, à medida que ele se despe retorna novamente a sua vida cotidiana. Assim, o figurino passa a ser um mediador entre corpo ambiente, entre performer e obra artística. (CRAVO et al., 2008, p. 155 apud MARQUES, 20, p. 23) A primeira leitura do personagem principal de um jovem, com ares de artista isolado e antissocial não se aproximava das referências visuais escolhidas para produzir o projeto. Parte das decisões tendiam para a imagem de um rapaz usando roupas folgadas e com tecidos texturizados e grossos, como linho, brim, jeans e muito crochê.
Outra coisa pensada sobre os figurinos foi que não poderia ter acessórios como relógios, brincos, piercings, colares ou pulseiras, já que a história retrata internos psiquiátricos e tais acessórios, para evitar acidentes entre os pacientes, não são recomendados.
Escolhida a tribo para a qual personagens principais, secundários e figurantes seriam ligados, com a paleta de cores definida, era hora de buscar algumas referências visuais para dar vida ao estilo que contraria a história de cada um deles.
No processo de caraterização dos personagens, a paleta de cores se adequou não só a personalidade de cada um, mas também às nuances necessárias para complementar o sentido da história contada através do roteiro.
O figurino de um personagem precisa dizer qual é a sua história e quem de fato ele é. De acordo com Pamela Weitzel:
O figurino foi e é a primeira impressão que os espectadores têm de um personagem; e é muito mais do que uma peça bonita, simples ou escandalosa, é ele quem situa os aspectos mais importantes da trama, como o local, a época e o tipo de história. Além disso, o figurino é peça fundamental na definição das principais características dos personagens. (Weitzel, 2013, p. 14) Apesar de as cenas emularem um universo paralelo, é importe manter algumas características de clínicas psiquiátrica, logo, nenhum personagem carrega objetos cortantes, acessórios como pulseiras, colares, brincos, relógios ou piercings.
EU 2 anda com uma bolsa tiracolo de couro repleta de objetos que não parecem fazer muito sentido juntos. O ímpeto natural do personagem em ser uma força da natureza em descontrole, que fala e faz o que vem na cabeça e provoca consequências imprevisíveis precisava de uma coleção de objetos pessoais que o intensificasse como potencial fugitivo, ao mesmo tempo que descrevesse como mente em constante produção artística. Era preciso incluir na caracterização do personagem elementos que transmitissem um ser humano em busca da unicidade em meio a padronização social.
A ideia de que ele carregue um mundo dentro de sua bolsa, emulando as bolsas do Gato Félix (Otto Messmer; Pat Sullivan, 1919) e de Hermione Granger (J. K. Rowling, 2001) sem elementos mágicos que a deixasse estendida ou se transformando em objetos, mas com objetos incomuns.
Figura 76: Gato Félix e sua bolsa mágica transformada em barco. Fonte: Youtube.
O roteiro sugere um personagem com medo do escuro, então busquei uma lanterna com formato menos convencional. Durante a pesquisa surgiu uma lanterna em formato de livro em que suas páginas são iluminadas por luzes led que mudam de cor sempre que

ela é aberta. O objeto aparece poucos segundos em apenas uma cena, mas servirá para demonstrar que EU 2 não é um personagem que se conforma com o trival.
Figura 77: Lanterna em formato de livro. Fonte: Shopee.
Junto com a figurinista Flávia Novais, e rascunho criado pela artista visual Fernanda Mathieu, desenvolvemos o conceito de uma gola mandarim, contornada por passadeiras de cós, com casas de botões e feitas em tecidos leves. As camisas com essa gola são parte do figurino de EU 2 e o nosso objetivo é que o personagem as use com gravatas slim de tecido ou madeira. Nossa ideia foi transmitir o eu artístico e inovador de EU 2, evidenciando sua personalidade impetuosa e imprudente na busca de sua essência motivadora que é fugir da padronização e ratificar sua individualidade.
Figura 78: detalhes da gola. Fonte: Arquivo pessoal.
Busquei uma visualidade adequada a personalidade forte de EU 2 através de tecidos pesados como jeans e brim nas calça e macacão, alinhado a tecidos mais leves nas camisas. O personagem precisa se destacar na multidão e ter ares de rebeldia e desleixo proposital, ao mesmo tempo que evoca o glamour discreto de um rock star indie em decadência.

Figura 79: Camisa desenvolvida para EU 2. Fonte: Arquivo pessoal.
O roteiro apresenta uma versão alternativa do personagem, sinalizado com as mesmas características físicas e comportamentais de EU 2. Sendo assim, o personagem DÚBIO estará vestindo o mesmo padrão de cores e estilo que EU 2.
VOCÊ é um personagem tímido e reticente, com necessidade de aceitação e um pouco ingênuo. Para além das cores em tom de roxo e coral, o figurino é composto por calças de brim e sarja, e principalmente, camisas manga longa e o personagem estará sempre usando acessórios na cabeça, dando ênfase a sua timidez e tentativa de esconder seu rosto da vergonha quanto tenta confrontar o mundo.
O diálogo entre uma estação de transição que nos prepara para receber o frio, dependendo da região do pais, compor o personagem através da paleta de cores buscou diálogo entre as contradições vividas por ele e o desejo de reforçar inocência e timidez como principais características de VOCÊ. A ideia da arte para esse figurino é de reforço a personalidade de VOCÊ enquanto personagem com desejo ambíguo de ser notado e, ao mesmo tempo, se sentir constrangido ao receber a atenção que procura das pessoas.
Assim como EU 2, VOCÊ tem uma versão alternativa que aparece no início do filme. Seu nome é INDECISO e ele seguirá as mesmas características que VOCÊ.
Quanto a EU 1, por se tratar de um personagem de caráter etéreo e aparições fluidas, sua túnica azul, cabelos despenteados, descalço e olheiras precisa expressar as características de um personagem estranho a paisagem. Visualmente o personagem evoca mais um fantasma que o clichê de paciente psiquiátrico do audiovisual.

O personagem precisa transmitir ares sobrenaturais e indicar que ele transita do mundo real para o imaginário e vice e versa. Ele surge com uma presença forte e impactante e por isso a composição do seu figurino foi simplificada em apenas uma peça em cor fria para ressaltar seu isolamento e solidão.
Figura 80: exemplo de figurino para EU 2. Fonte: Google Imagens.

Figura 81: Exemplo de figurino para VOCÊ. Fonte: Google Imagens.
Figura 82: Exemplo de figurino para EU 1. Fonte: Google Imagens.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pandemia mundial de Covid-19 que assola e dizima vidas em nosso país desde março de 2020, acabou impactando também no projeto de produção do curta metragem NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE.
Com uma campanha orçada no Cartase estipulada em R$ 10.000,00 (dez mil reais), acerto de colaboração financeira e material de algumas empresas de Cachoeira e Muritiba, bem como vaquinha feita por minha mãe e minha irmã Fernanda, a equipe e eu estávamos animados para tirar o projeto do papel.
Havíamos feito um planejamento de gravar em abril de 2020 e defesa do projeto de arte do filme no primeiro semestre de 2020. A equipe era composta por aproximadamente 30 estudantes de inúmeros cursos da UFRB, dentre os quais destaco Gabriel Amarante e Eliabe Barbosa, meus assistentes de direção e direção de arte, Otávio Assis, Benício Lira e Guilherme atuando, respectivamente, como Eu 1, Eu 2 e Você, Anamélia Rocha na preparação de elenco, Ysllei Nogueira no microfone, Victoria Nasck fazendo making of e still, Charles Morais na continuidade, os figurantes Leonardo, Natan, Caio Nicolav, Albert Elias, Ithana Maria, Rilary, Dora, Thaila, Jad Cardoso, Vincius Santana, Mario Guimarães e Wallace, não citados no agradecimento inicial, mas que fizeram parte do projeto e por quem tenho imenso respeito, carinho e gratidão.
Boa parte da equipe estava acompanhando o trabalho desde a adaptação do conto até a escolha das locações, e me deram muito apoio quando a gravação do projeto foi cancelada em definitivo.
Da minha parte, foram meses de negação e indecisão a respeito do que apresentar como projeto final do curso, e que contivesse um pouco das expectativas criadas por mim e pela equipe. Até que sob adiamentos e incertezas, em agosto de 2020, decidi que não aguardaria o fim da pandemia para realizar a produção do curta.
Mas ainda faltava escolher entre os roteiros. Havia um projeto em processo de adaptação intitulado “Sertanácido Lisérgico”, apresentado como projeto final na disciplina Metodologia de Pesquisa, e o roteiro de “Nem sempre você vai querer me amar pra sempre”, que, pelo tamanho do título era cansativo dizer em voz alta.
No final, com estímulo da orientadora e da marca estampada numa camisa numa camisa que minha amiga Laila e eu fizemos, acabei por escolher “Nem sempre” – não me arrependi, mas, com certeza, foi um trabalho hercúleo que consumiu inúmeras noites de
sono, provocou emagrecimento e queda de cabelos (para desesperado da minha mãe que odeio pelos soltos pelo chão).
Olhando todo o processo, minha decisão por criar um memorial do projeto de arte e me direcionando cada vez mais para a área de roteiros de séries, sinto que foi a escolha mais acertada para concluir minha passagem pela UFRB.
Imagens, sons, referências e decisões de arte contidas neste memorial compõem anos de sonhos e frustrações em torno do que a arte poderia significar em minha vida, ao mesmo tempo criando um novo olhar a partir das experiências e conhecimentos adquiridos durante os quatro anos de estudos no curso de cinema da UFRB.
Hoje, tendo recebido apoio da APAN (Associação do Profissionais do Audiovisual Negro), buscas no Instagram e Facebook, além de indicações de amigos, consegui participar de inúmeros laboratórios focados no audiovisual, abrindo minha percepção do mercado e suas necessidades a ponto de motivar escrever meu primeiro projeto de série, apresentado em um pitching à produtora Sentimental Filmes e elogiado numa live da Imprensa Mahon, um site ligado a divulgação de novidades do mercado audiovisual brasileiro.
Meu mundo deu mais algumas voltas e grande mudanças ocorreram. Fui selecionado para um curso de duas semanas na empresa de distribuição audiovisual Vitrine Filmes, inscrevi junto com Erick Moreno, três projetos séries no FRAPA (Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre) e participo com quatro projeto de filmes, junto com Giulianna Palumbo, do seletivo do Lab Writer's Room 51, realizado em parceria com a TDC. A motivação de querer contas histórias, sejam elas escritas ou em produtos audiovisuais é meu novo objetivo de vida.
Sim, o audiovisual é a meu presente e meu futuro. A visão romântica do calouro de cinema em 2016, as dificuldades atravessadas que quase me fizeram desistir, festas e encontros na Praça 25, o amor e apoio da minha família e amigos, para, enfim, poder dizer que as impressões artísticas contidas nesse documento são uma homenagem a todas as pessoas que influenciaram positiva e negativamente minhas escolhas e me trouxeram até aqui, concluindo minha passagem pelo curso de cinema a partir de um roteiro iniciado em 2017.
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REFERÊNCIAS AUDIOVISUAIS
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<https://www.youtube.com/watch?v=T1OBzNqTOZQ&ab_channel=Expedi%C3%A7 %C3%A3oAquarius>. Acesso em: 21 abr. 2021. THX 1138. Direção de George Lucas. San Francisco: Zoetrope Studios, 1971. Disponível em: <https://vimeo.com/150086321>. Acesso em: 20 abr. 2021. TINTA BRUTA. Direção de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Porto Alegre: Vitrine Filmes, 2018. Disponível em:< https://www.vimeo.com/271331441>. Acesso em: 19 abr. 2021. UM FILME SOBRE O BOM FIM. Direção de Boca Migotto. Porto Alegre: Epifania Filmes, 2015. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6Avp_hKhK9A&ab_channel=EpifaniaFilmes>. Acesso em: 14 abr. 2021. VIS A VIS. Direção de Daniel Écija, Álex Pina e Iván Escobar. Espanha: Antena 3, 2015. Disponível em: <https://www.netflix.com/br/title/80059465>. Acesso em 17 abr. 2021.
APÊNDICE 1
Conto “Nem Sempre Você Vai Querer Me Amar Pra Sempre”.
NEM SEMPRE VOCÊ VAI QUERER ME AMAR PRA SEMPRE
“Eu sinto que a gente meio que funcionava juntos. Era uma amizade cruel, baseada em interesses mútuos: eu precisava do teu afeto e você precisava de um gozador pra chamar a atenção dos outros.
Nesse processo simbiótico predatório, um passo de cada vez, uma ausência em todos os corações, ora reunidos pelo triste sonhar com dias melhores ora por paixões avassaladoras que duravam alguns segundos, estávamos ali e os nossos anos juntos passaram tão rápido que nem sequer lembro quando começou e porque terminou.
Mas vou tentar: era tarde, segunda-feira de um agonizante agosto. Mesmo o ano empacado no mês mais longo de todos, lá estava eu sentado e divagando sobre a morte do elefante albino na Rússia setentrional. – sou dado a pensar em coisas absolutamente absurdas, apenas para escapar da realidade ou das pessoas que a protagoniza.
Meu lugar naquele café era o mesmo. O pedido era o mesmo: uma taça com pingado e bolachinhas de goma. Não sei como cheguei ao costume de pedir sempre a mesma coisa... acho que um pouco de covardia, comodismo e necessidade de mandar o atendente embora o mais rápido possível.
Enquanto eu bancava o Hércules no mundo imaginário e salvava o Minotauro das garras de seu labirinto interior, o mundo real cumprimentava, satisfeito, celebridades recém empossadas. Pessoas que, sem qualquer talento ou relevância social, subverteram a ordem natural da vida e se tornaram membros seletos do clubinho cult.
Um bando de gente wannabe com status pra dizer quem deve ou não ser seguido, o que é ou não ‘legal’ e quais as roupas e expressões pra dizer quem é alguém nesse vasto planeta (tudo isso sem mover um músculo do rosto, o que mexia era sempre uma das sobrancelhas elevada a máxima potência da soberba e do ensimesmismo) – a grata surpresa é quando esses jacarés de sapato de madame se envolvem em disputas eternas sobre ter ou não ter razão, agrupam todas as opiniões, e no final, o Frankenstein é Marilyn Monroe na frente dos monstros que surge dessas fétidas conjurações.
Eu, ficava ali, tomando café. O calor das discussões não aquecia aquelas mentes congeladas por conceitos vazios e estéticas simplistas.
Não me metia, não me enturmava. Fazia de conta que tudo o que estava acontecendo era à parte.
Ouvia aquela gente esnobe, sem qualquer traço de nobreza, se apropriar de cores e tons das ruas, dos guetos, das favelas... da gente simples que sente falta de dez centavos no fim do dia. Empunhavam a espada da originalidade, mas comiam suas próprias gorfadas com crème brûlée e recheavam com corrimento anal seus croissants.
Era tudo muito nojento. Uma atmosfera harmonicamente plantada como inovadora, mas que sequer citações eram de alguma forma originais.
No meio daquela apavorante soma nula, um rapaz desajeitado me chamou a atenção.
Sim, você nasceu naquele dia – pelo menos para mim. Ontem mesmo, enquanto ainda decidia se sentia saudade ou era só tédio, dormi abraçado com teu cobertor preferido, aquela coisa verde musgo com cheiro de pão romeno... com tanta coisa pra você dormir, tinha que ser algo tão peculiar, tão único? Agora mesmo, depois de jogá-lo fora, hei de lembrar dos teus primorosos momentos dormindo na poltrona vitoriana que roubei do teatro.
E sim, era só tédio. Mas, preciso retomar meu pensamento ao dia em que você nasceu. Para mim você é de merda com ascendente em coisa alguma. Seu mapa astral só poderia ser feito por mim, já que envolto em tanta bobagem alguém poderia te confundir com sagitário. Sei que nem mesmo nasceu com o sol em peixes, outro signo apático e dado a falação de bobagens sem fim, acho que isso é câncer
Cansei de ser expectador da tua falação sem sentido e tive que fazer algo, ignorar quem sabe.
Mas o festival de besteiras foi tanto, que tive que te trancar no banheiro, olhar nos teus olhos e perguntar: “Aceita um pouco de dignidade em pó?” – teu sorriso achando que era cocaína me fez ver que teu desespero era maior do que havia pensando.
Um estranho te tranca no banheiro e insinua uma carreira, e nem sequer pensou no que teria de lhe ceder em troca? Sério que minha oferta de dignidade se restringiu a algumas horas de hiperatividade, boca amarga e restrição intelectual? Essa seria tua visão de dignidade? Me sentei no vaso, tirei uma pastilha do bolso e te ofereci. Para minha surpresa um gesto tão afável e despretensioso te causou estranheza, mas se fosse um raio de cinquenta centímetro seria normal e aceitável.
- Você está com mal hálito. – te disse sem qualquer traço de constrangimento ou remorso.
- Nossa, eu... ai, cara. Desculpa... eu. Nossa! Achei que fosse outra coisa. - Então... não, não é. Não se trata de uma linha em troca de favores sexuais no banheiro. Só queria ter um momento contigo tão constrangedor que ao falar do que se tratava, a vergonha fosse do pensamento anterior, não da real situação que me levou a me trancar aqui com você.
- Ainda me sinto constrangido. - Sei. Mas vai passar. E antes de sair, colocar isso na boca e vamos voltar. Imaginei o quanto seria interessante os olhares curiosos em cima da gente.
Dito e feito. Ao sair do banheiro, você lambendo o lábio inferior e eu ajeitando o cabelo. Fomos surpreendidos com algo que jamais havíamos visto naquele templo de adoração à indiferença. Creio que deve ter sido uma experiência lancinante para boa parte daqueles seres sem expressões faciais detectáveis aos olhos humanos – era um misto de curiosidade e culpa.
Eu me sentei, te chamei pra sentar comigo, coloquei meus cotovelos na mesa e as mãos sobre os queixos, numa referência direta as princesas que encontram seu mágico príncipe eunuco (cá pra nós, meu velho: um cara montado num cavalo branco, trajado com uma meia calça mais apertada que última semana do mês e as bolas não incomodam? Lógico que tem algo errado ou faltando ali) e fiquei ali, admirando sonolento tua infinda logorréia juvenil.
Passei a te olhar no rosto, com um leve ar de contemplação, por motivos que eram só meus, mas que não precisam ser mais segredo: eu te ganhei quando fechei a porta, e nada do que eu fizesse a seguir iria te afastar de mim. Nos tornamos um casal goy, browmance ou seja lá qual for o nome que os ‘cultizinhos’ chamam: teu coração era meu, e meu cérebro maligno sabia e se divertia com isso.
- Você me olha como se fosse me levar pra dentro de você. Por que isso? - Nem sequer pergunta meu nome, quase aceita sexo por drogas, chamo de boca fedida e no final se senta à mesa comigo...
- Desculpa te interromper, mas eu não disse que faria sexo por drogas. - Claro que não. Teria aceitado sem as drogas mesmo. Diz que teu coração não tá ai, batendo tão forte quanto prisioneiro em visita íntima. Vai dizer que esse estômago não tá cheio de borboletas tontas voando em torno da luz?
- Eu não vou dizer nada. - E nem precisa: essa cara vermelha tá dizendo por ti. - Mas como eu poderia não sentir vergonha? Olha as coisas que você diz! E tudo isso aqui, em público, na frente de todo mundo, como se fosse verdade ou a coisa mais natural do mundo.
- A coisa mais natural do mundo pra você então é o que essa gente vem fazer aqui? Roubam arte dos outros, escolhem belos nomes durante um porre ou em uma visita a cartomante sequelada que prende anúncio em poste. Eles levitam para não pisar no mesmo chão que nós mortais pisamos e voltam pra casa achando que servem pra alguma coisa. Esse é o mundo que você considera mais normal do que olhar nos olhos de alguém e dizer: você se apaixonou por uma pintura viva e falante?
- Acho que isso é um engano. Não estou apaixonado, sequer posso dimensionar se tenho qualquer sentimento por você. Eu não seria leviano de me... mas que merda eu tô falando? Eu deveria me levantar e sair de perto de você. Mas isso vai chamar muito mais atenção.
- Quer passar despercebido? Vem comigo. Vou te mostrar o que é a vida real. - Eu não posso sair e seguir um cara estranho, pra um lugar quem não sei onde é. - Minha casa, uns metros daqui. Você vai curtir e muito dar um tempo dessa tua semgracisse aguda!
- Não, não vou. - Para de conversa. Se fosse pra te matar teria feito no banheiro... ou iria te convencer a ir pra lá por um pouco de pó.
- Nem sequer te falei que aceitaria! - Ótimo, então vamos. Eu pago essa e a próxima é tua vez. Ah, e vê se começa a falar menos roboticamente. Parece que engoliu a Gramática do Professor Tristonho e aprendeu a falar um português monárquico.
E sim, você se levantou daquele coma social em direção a casa de um estranho. Um estranho que te causou desconforto por iluminar com um holofote de 3000 megawatts teu lado obscuro. Já não dava pra fingir, a gente havia se conectado naquele momento. Não foi preciso beijo, drogas ou qualquer estímulo além de palavras e olhares, uma relação começando pura e sincera... que iria acabar assim: maculada pelo mesmo mal que nos uniu.
Foi um drama te convencer a dormir lá em casa, e por alguma razão, mexendo em minhas coisas, você achou aquele coberto horrível, que fiz questão de jogar fora ontem.
Detestava aquela cor, aquela textura, aquele cheiro... mas acho que o que mais detestava era não te ver escornado no sofá, dormindo com a boca aberta, rocando de uma forma que me dava vontade de pegar o travesseiro e te enviar pra Cristo... eu não conseguia mais me virar pra sala e não te ver deitado ali, eu não consigo mais seguir em frente sem saber se amanhã é domingo pra ver luta ou segunda pra jogar vídeo game. Sexta sem pizza meio calabresa, meio quatro queijos. Suas mãos fazendo massagem em meu pescoço, pra me fazer relaxar do meu dia de fracasso no trabalho... tá cada vez pior me sentir sozinho, cada dia pior saber que amanhã não será diferente de hoje e eu nem sequer serei uma assombração na vida de alguém, serei apenas o cara que senta sozinho com seu bloquinho de anotações, tentando escrever uma despedida sincera.
E dentre todas as coisas que eu queria te dizer antes de partir, a mais sincera é: não precisava sempre me amar, afinal, eu sabia que você não iria querer me amar pra sempre, mas precisava apenas saber que sempre que precisasse de alguém pra me amar, você iria querer me amar sempre. E hoje, ao perceber que não posso viver apenas com a minha parte no mundo, vou te punir te deixando sem essa minha parte que era tua.
A gente não chora de saudades pelo que perde, a gente sente é falta de ter um pedaço de alguém e ser um pedaço desse alguém – não como numa divisão, mas como uma soma que aumenta a quantidade de parcelas toda vez que um ser tromba com outro e se cola, se une, se reconhece no olhar daquele estranho que não faz mais sentido viver longe.
Eu realmente sei o que afasta as pessoas umas das outras, sei que obrigar a ficar é uma tortura maior que aprender a seguir sozinho, mas se era pra ser assim, prefiro me tornar o teu algoz e te privar de sentir que eu ainda possa existir.
Assim sendo, um grande adeus vazio em tua alma, e a minha jazerá escuridão.”
Deixou a carta com o porteiro, subiu no viaduto e acordou antes de se jogar.
APÊNDICE 2
Banda Fictícia do Filme
No Nickname é uma banda de indie-folk rock, fundada em 2014, a banda começou no Brasil, mas se mudou para Seattle em 2015. Composta por quatro membros, se conheceram e montaram a banda por redes sociais depois que conseguiram bolsa de estudos para os EUA, onde residem até hoje.
Figura 83: Arte final da banda No Nickname. Fonte: Arquivo Pessoal.

Letras das músicas, com tradução de Taís Moreira
BLUE DORM
The towel was dirty with foam
But you used it anyway
Whenever you're around
The windows open inwards
And the bathroom floor doesn't get wet
Even with the shower on
Nothing seems to work right
Every time you come here
I can't release
Not even a drop of emotion
Or clench my hands in anger
To wish you some harm
I made a bridge to end
This gap between us
But that storm brought it down
And who could have imagine it
Isn't anger about love?
HALF DOLLAR FOLK
When I changed places, you came
You don’t seem to realize that your presence
The hair on your arm
They disgust me
And that failed beard only makes me
Want to look away
You say you don't follow me
Pretending that you don’t care.
That I don't exist
But soon the night falls
And your bed is reminder of my warmth
Even the bedroom door smells of me
Don't try to simplify my life
With your low standards
I do insist
We finish what we started
NATURAL SELECTION
When I saw you coming
I let go of another drink
I may even fall
But it won't be in your hands
I trust my instincts
And surrender to the floor
If your lips try to touch mine
I'm not that easy anymore
I'm not that easy anymore
For those who left once
Saying that would never come back
Kissed so many mouths, climbed
On branches and fell from the curb
Now has forgotten who we are
Asks to remember alone
And following in my footsteps
Marked on the floor with bloody tears
I trust my instincts
And surrender to the floor
If your lips try to touch mine
I'm not that easy anymore
I'm not that easy anymore
MINIMUM DREAM
That knife in your hand
Pulsing with my breath
Not even a night song wanted to repeat
Hands up
Stuff your chest and try to survive
Today is not the best day to leave this world
Do you know that underwater pier?
That’s where I hid all my pain when you mocked (made fun of) me
Tomorrow those same friends of yours
Wearing the same clothes
Breaking the silence of morning making me scream
I was beaten every time I cried
Hands up
Stuff your chest and try to survive
Today is not the best day to leave this world
At least where I am now, I’ll have the peace you stole from me every day
It won't be easy to walk without worrying about being followed
Or having someone share my humiliations in pictures
Hands up
Stuff your chest and try to survive
Today is not the best day to leave this world
TWO CATS IN A FLYING SAUCER
Your last words
Made me believe again
That sometimes we can
Go back in time to be happy.
But I started to throw up
The disaffection I bought
With your dark way of ignoring me
I woke up this morning trying
To remember what dreamers do
When stripped by the real world
That's when I saw you sleeping there
So serene and confident that not even
The water that surrounded our bed
Came up to drown you
My last shirt was carried by the current
That also took our only love song
Meanwhile you were still asleep
Waiting for the water
To take me further and further
Until the shadows of my memory
Were erased from your skin
PARTY IN THE MUINE BHEAG
Green sprouted from cement
And in the movie theaters a new film
The streets covered with flowers
And bears tumbled
In exchange for a piece of bread
Warm beer
Cold heart
Cold beer
Warm heart
Feet, quick as a rifle shot,
Dancing of happiness
Like the suns of Pluto
Long lines
Kept the joy of
Celebrating a better world
And even without the genie of the three wishes,
The day ended well for everyone
Now it remains to wait
That tomorrow doesn’t change yesterday
That happiness keeps walking
And partying through the city streets
Until the sun stops shining
NO NICKNAME
Today I discovered the chance encounters
That walk beside me
To make me find you
We had a serious fight
Because of you and we broke up.
From now on I'm free
To walk the streets
And end, unintentionally
Bumping into you
If my phone rings
It won't be you calling
Even if it is, I won't know
Your number
Has no name or nickname
Didn't even want to save your contact
This way I also
Avoid calling, maybe
But you can’t
Make your heart
And it waits for us to go to sleep
To say that pretending
Not remembering doesn’t work.
It hurts too much to smile
So all that’s left is to cry
Maybe that’s how I’ll learn
And won’t try walking
On the tightrope
Pretending I know
Where this is taking me
I won't drink
Sleep or smoke.
Today I just want to be sure
That adding zeros
Only fill spaces with emptiness
LOSING MY STALKER
Today I wanted to forget you
For your kiss that was once ours
Now suits everyone
Like an empty glass in the wind
No need to pretend
To remember or care for me
Look for someone who fills
With lies this bottomless pit
Surrounded by a vanity wall
That you call a heart.
The kind of love that a place like that
Produces should scare me
But I'm still here
Looking at you from afar
With the eyes of my imagination
That’s when I understood
That every mouth yours touches
It's to take away the taste
Of my kiss
But that your infinite and obscure void
So violently rejected
That was fixed in your tongue
HATE ME
Before I leave for good
I need to ask you one last favor:
With all your strength hate me
I don't deserve to be remembered for who I was
If one day I made you happy
The time has come to forget
Save what is left of your dignity
In those red eyes that only know how to cry
And if still
You have some hope left
For better days by my side
Stop deluding yourself and please hate me
Start again with someone
Who is worth waiting for
Because knowing that your insomnia
It's part of my legacy
Should sabotage the bit of hope
Buried deep in your heart
In fact, this bit
When pulled there is no end to it
So set it on fire
And please hate me.
Loving me is not worth it.
Surely I'm leaving
Without looking back
Not for fear of regret
But because is expensive turning to the past
When the future shines in front of me.
If one day I made you happy
The time has come to forget
Save what is left of your dignity
In those red eyes that only know how to cry
And if still
You have some hope left
For better days by my side
Stop deluding yourself and
Please hate me
Start again next
To someone worth waiting for
Because knowing that your insomnia
It's part of my legacy
It should sabotage the bit of hope
Buried deep in your heart
In fact, this bit
When pulled there is no end to it
So set it on fire
And please hate me.
Loving me is not worth it.
ABOUT US
Deep in your eyes
I saw a clown
Tied to a chair
Sobbing with thirst
The long shoes on his feet
Dripping the warmth of your soul
Just a smudge on the makeup
And dreams dripping from your lungs
Once young and beautiful
Now it's another young man without illusions
Stepping on his own laugh
Tied up with that
Wire fake nose
The splinters that caused pain
Painted a canvas with blood on the floor
A sad song playing in the background
Then two men
Buried him in the ground

Texto desta prancha
PROJETO DE
DIREÇÃO DE ARTE S



Texto desta prancha
Nem Sempre Você Vai Querer Me Amar pra Sempre
é um curta metragem de drama, que conta a história
de um interno psiquiátrico entediado que cria universos
em espelhos para dar vazão a emoções e insights
criativos, bem como fugir da solidão.


Texto desta prancha
Após pesquisa em torno de tribos urbanas com semelhan ças às apresentadas no roteiro do filme, o projeto de arte encontrou na tribo urbana hipster elementos condizentes com a visualidade para descrever o mundo dos personagens do curta metragem.
São apenas três personagens trocando de cen ários de acordo com emo ções exteriorizadas em um dos mundos do filme: o real e o mundo dos espelhos.
A arte, a música e a literatura s ão elementos descritos no roteiro com riqueza de detalhes, e a intera ção dos personagens com o mundo exterior sugere fuga da realidade através dessas manifesta ções culturais.
O personagem EU 2 é um perfeito contraste com o personagem VOC Ê, o que evoca a ideia de uma paleta de cores opostas para os personagens.
Sendo EU 2 uma manifestação do fantástico, um construto expelido pela mente de um interno psiqui átrico, a cor escolhida foi o amarelo.
Cor oposta ao amarelo, assim como o personagem VOC Ê é o oposto de EU 2 , temos o roxo. Mesmo tendo um paralelo de fantasia com ó o amarelo, o roxo se s obressai por induzir ainda mais a percep ção de locais ou situa ções fora de qualquer contexto de realidade.
Objetos produzidos com t écnica DIY (do it youself – faça você mesmo), ressinificados para a mitologia do filme, em tons de coral s ão diálogos da arte com a leveza próxima do infantil com os quais EU 2 e VOCÊ tentam unir seus mundos e o mundo à sua volta. Em paralelo a isso, temos EU 1 e seu uniforme azul: única peça na tonalidade, ratificando sua total desconex ão com o mundo no qual, às vezes, transita.




Texto desta prancha
paleta de cores
#FFFF66
#CC99CC
#F89D7D
V

Texto desta prancha
o amarelo e os distúrbios mentais uso de psicotrópicos, doenças mentais ou realidade fantástica
Yellow Submarine,
The Shining, George Dunning - 1968
Kubrick - 1980
Kill Bill Vol. 1,
Moonrise Kingdom, Tarantino - 2003
Wes Anderson - 2012
vis a vis, Dark, Álex Pina - 2015
Ronny Schalk, Jantje Friese - 2017

Texto desta prancha
o roxo e o fantástico materializaçao dos sonhos e o mundo da fantasia
The Color Purple,
Legion, Steven Spielberg - 1985
Noah Hawley - 2017
tinta bruta, Filipe Matzembacher, Márcio Reolon - 2018
Avengers: Infinity War,
Color Out of Space, Joe Russo, Anthony Russo - 2019
Richard Stanley, 2020

Texto desta prancha
coral a leveza das cores doces
The Grand Budapest Hotel, Wes Anderson - 2014
Demolition, Jean-Marc Vallée - 2015
Planetarium, Rebecca Zlotowski - 2017


Texto desta prancha
O
café
referências



Texto desta prancha
hostel casa de avany - Rua 25 de Junho, 03, Cachoeira - BA, 44300-000




Texto desta prancha
Objetos de CENA
o café

Texto desta prancha
VARAL LED
CACHEPOT DE PAREDE RODA GIGANTE DE PAPELÃO
cesta agrícola PLANTA ARTIFICIAL
ÁLBUM RODA GIGANTE
LUMINÁRIA DE mesa

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cerveja artesanal
Vaso de mesa
origami papel crepom
literatura de cordel
fanzine

Texto desta prancha
mesa de bar
sorvete preto
sorvete de mesa
pão colorido
caneca vintage
copo lâmpada

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microfone
caixa amplificada
microfone
luminária suspensa
cortina de led
luminária suspensa


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cachepot de parede

Texto desta prancha
luminária de chão

Texto desta prancha
banheiro do café
referências


Texto desta prancha
Objetos de CENA
banheiro do café

Texto desta prancha
cachepot de macramê
vaso de flores
prateleira
porta sabonete

Texto desta prancha
a
CASA
referências



Texto desta prancha
Objetos de CENA
A CASA

Texto desta prancha
LUMINÁRIA DE mesa
LUMINÁRIA DE mesa
LUMINÁRIA DE mesa
rack retrô

Texto desta prancha
TAPETE AMARRADINHO
almofada
COBERTOR
divã namoradeira

Texto desta prancha
LUMINÁRIA DE mesa
LUMINÁRIA DE mesa
LUMINÁRIA DE mesa abajur manequim

Texto desta prancha
tripé de madeira
porta-lápis
tinta acrílica
godê de pintura
maleta de pintura
pincéis

Texto desta prancha
cola bastão
porta-chaves
tela de pintura
vitrola
jarro de chão
saco de lixo

Texto desta prancha
cachepot de macramê
escrivaninha
estante
mesa bicicleta

Texto desta prancha
a
COZINHA
referências


Texto desta prancha
Objetos de CENA
a
COZINHA

Texto desta prancha
kit cozinha aparelho de café
lixeira
frutas
geladeira

Texto desta prancha
horta vertical
fogão
mesa de bobina
armário de cozinha

Texto desta prancha
o
BANHEIRO
referências


Texto desta prancha
Objetos de CENA
o
BANHEIRO

Texto desta prancha
kit banheiro cachepot de pia
toalha de banho
vaso de planta
tapete para banheiro
toalha de rosto

Texto desta prancha
cachepot de macramê
lixeira
ARMÁRIO ESPELHO
PRATELEIRA

Texto desta prancha
o
BANHEIRO
da clínica
referências


Texto desta prancha
Objetos de CENA
o
BANHEIRO
da clínica

Texto desta prancha
frasco de pílula
sangue falso
comprimidos

Texto desta prancha
o
GRAMADO
referências

Texto desta prancha
ufrb - Prédio Administrativo. Rua Ana Nery, 25, Centro - Cachoeira-BA

Texto desta prancha
Objetos de CENA
o
GRAMADO
referências

Texto desta prancha
tripé de madeira
porta-lápis
tinta acrílica
godê de pintura
maleta de pintura
pincéis

Texto desta prancha
tripé de madeira ataduras
frasco de pílula porta-lápis
tinta acrílica vela godê de pintura sangue falso
maleta de pintura seringa comprimidos pincéis

Texto desta prancha
tripé de madeira ataduras lençol cola bastão porta-lápis
tinta acrílica espelho vela godê de pintura tela de pintura
maleta de pintura LUMINÁRIA DE mesa seringa LUMINÁRIA DE mesa pincéis

Texto desta prancha
OS
PERSONAGENS
referências



Texto desta prancha
Eu 2
homem negro,
magro, 1,75 m,
cabelos curtos,
aproximadamente 22 anos

Texto desta prancha
Eu 2
referências
ícaro silva
sérgio Malheiros

Texto desta prancha
#F6D264
#F2EBD9
FIGU
RINO

Texto desta prancha
#FAAB1B
#D48F1A
FIGU
RINO

Texto desta prancha
gola ESPECIAL
FIGU
RINO

Texto desta prancha
gola ESPECIAL
FIGU
RINO

Texto desta prancha
BOLSA TIRACOLO porta-lápis
porta-lápis MOLESKINE
PESSOAIS
Objetos
porta-lápis NÉCESSARIE
ESTOJO PROFISSIONAL porta-lápis
a l g u a
GARRAFA D’ÁGUA porta-lápis
LANTERNA LIVRO porta-lápis

Texto desta prancha
Eu 1
homem BRANCO,
magro, 1,75 m,
CABELOS LONGOS
aproximadamente 22 anos

Texto desta prancha
Eu 1
referências
TIAGO IORC

Texto desta prancha
FIGU
RINO
#B1C9E5

Texto desta prancha
AGEM maqui
olheiras
olheiras
olheiras

Texto desta prancha
Você
homem BRANCO,
magro, 1,70 m,
CABELOS curtos
aproximadamente 20 anos

Texto desta prancha
Você
referências
zayn malik

Texto desta prancha
FIGU
RINO
#FF7A74 #52346C
#FF7A74 #62566C #F49E87
#FF7A74 #Ff5451
#C5ABBD #FF7A74

Texto desta prancha
Indeciso
homem negro,
magro, 1,75 m,
CABELOS curtos
aproximadamente 25 anos

Texto desta prancha
FIGU
RINO
#FF7A74 #F8B608
#FBC86C #FF7A74

Texto desta prancha
Dúbio
homem BRANCO,
magro, 1,70 m,
CABELOS curtos
aproximadamente 20 anos

Texto desta prancha
FIGU
RINO
#DFDCEF #FF7A74
#FF7A74 #351F4E




Texto desta prancha
FIGU
RINO
traje dos enfermeiros
porta-lápis frente
porta-lápis costas





CENA 1: INT. TARDE - SALÃO DO CAFÉ
INDECISO, homem aparentando pouco mais de vinte anos, sentado numa
mesa folheando as páginas de um cardápio. Na mesa de INDECISO,
garrafa e um copo pela metade de cerveja. GARÇOM de pé, parado ao
lado da mesa, balançando uma das pernas, sinalizando impaciência,
suspira e sai de perto em direção ao balcão. Chega DÚBIO, homem
aparentando vinte e poucos anos entra no bar, olha em volta, sorri
com o canto da boca, senta na cadeira da frente de INDECISO, que
ainda continua passando as folhas do cardápio sem escolher nada.
INDECISO ergue os olhos e avista o GARÇOM, faz sinal de sim com a
cabeça. O GARÇOM traz um copo e despeja o resto da cerveja no copo
de DÚBIO. DÚBIO não bebe a cerveja. Olha em volta, restaurante vazio.
DÚBIO
Sabe qual a diferença entre a gente?
INDECISO
(Faz sinal de não com a cabeça)
DÚBIO
Nem eu! Confundem tanto você comigo, eu
com você, que até hoje não sei o que, ou
quem, na verdade nós somos.
INDECISO
Mas você já percebeu o quanto a realidade
é bipolar? Um hora dessas a Terra
descobre que é na verdade a Lua, e, que
por milênios, viveu numa crise de
identidade cósmica.
Enquanto enchem os copos e brindam, pessoas começam a entrar com
objetos para montar a exposição de arte no pátio do café.
CENA 2: INT. MANHÃ – SALA DA CASA DE EU 1
Sala ampla, bem iluminada poucos moveis, muita decoração na parede.
EU 2, homem aparentando entre 22 e 26 anos, deitado sobre o chão,com um dos braços sobre um divã, babando sobre um cobertor. Em sua
volta pincéis, desenhos e fotografias rasgados, uma tela com o
contorno do rosto de VOCÊ, homem aparentando entre 22 e 25 anos, e
alguns pedaços de tecido colados, alarme do celular toca. EU 2 acorda
e levanta bruscamente, desliga o alarme, são 10:00 horas. Senta no
chão recostado no divã, onde coloca o cobertor. Cruza os braços na
linha da cintura, de cabeça baixa. Alarme do celular toca novamente.
CENA 3: EXT. TARDE - PÁTIO DO CAFÉ
Mesas ocupadas por pessoas que passam entre artes impressas. Eu 2
olhando para cima e o GARÇOM na frente da câmera. GARÇOM sai de
quadro e EU 2 avista VOCÊ segurando um papel amarrotado. Trêmulo,
VOCÊ respira profundamente e faz contato visual com EU 2.
CENA 4: INT. MANHÃ – SALA DA CASA DE EU 1
EU 2 retira o cobertor do saco de lixo, se enrola e se senta no chão.
Pega pedaços de tecido, cola na tela com o contorno do rosto de VOCÊ.
Olha para as fotos rasgadas de VOCÊ e monta uma foto. EU 2 deita no
chão, com lágrimas nos olhos, conversa com a foto que montou.
EU 2
Você não vai lembrar de me amar porque
me viu ou me conheceu... mas pode ser
que lembre de me amar quando algum dos
seus amores partir. E mesmo que as
profundezas da tua alma te peça, nem
sempre você vai querer me amar pra
sempre.
CENA 5: INT. MANHÃ – COZINHA DA CASA DE EU 1
EU 2 entra arrastando o cobertor pelo chão. Passa por mesa arrumada
com café da manhã. EU 2 se aproxima da mesa, abre o bule e cheira o
café, expressão neutra. Anda até a pia, pega um saco de lixo, coloca
o cobertor dentro, passa olhando para a pela mesa do café e vai para
a sala segurando o saco de lixo.CENA 6: INT. MANHÃ – SALA DA CASA DE EU 1
EU 2 deitado dormindo. Acorda, se levanta abruptamente, tira as
roupas deixando-as no chão, pega o cobertor e sai arrastando em
direção ao banheiro. (OFF - barulho do chuveiro). EU 1, homem branco,
magro, aparentando entre 22 e 25 anos sai do banheiro enrolado na
toalha, entra no quarto, fecha a porta e ao abrir, EU 2, já vestido,
segurando a toalha de EU 1 e uma bolsa tiracolo. EU 2 pega as chave
na porta e sai.
CENA 7: EXT. TARDE - PÁTIO DO CAFÉ
EU 2 sentado com os cotovelos sobre a mesa, olhos vidrados. Coloca
os zines e cordéis para o lado, pega de dentro de sua bolsa um
moleskine, alguns lápis de desenho e uma borracha. EU 2 escreve
diálogos em balões de quadrinhos:
EU 2
(voz over)
"Como está o seu crème brûllée?"
"Com um pouco de golfada fica melhor" "E
seu croissant?"
"Hum, ficaria melhor com um pouco de
corrimento anal!"
CENA 8: INT. MANHÃ – BANHEIRO CASA DE EU 1
EU 2 em frente da pia e armário espelho. Na pia duas escovas de dente
num copo e creme dental. Eu 2 pega um escova, coloca pasta e escovar
os dentes. Abaixa para cuspir. EU 1 aparece com um dos olhos roxo e
boca com espuma, pega a outra escova e tenta jogar no vaso de lixo,
erra, abaixa e joga. EU 1 abre a torneira, abaixa para lavar o rosto.
EU 2 retorna na frente do espelho com o reflexo de EU 1. EU 2 vai
em direção a porta do banheiro, mas para de andar na frente da porta,
vira de costas e pega um pote de pílulas dentro do espelho e coloca
no bolso.CENA 9: EXT. TARDE – PÁTIO DO CAFÉ
VOCÊ passa ao lado de EU 2, que apenas o acompanha com o olhar. VOCÊ
vai andando em direção a um microfone no tripé no palco, bate no
microfone para ver se está funcionando, e se posiciona na frente de
EU 2, mãos trêmulas, olha para as mesas, apenas EU 2 está olhando
para ele. VOCÊ abaixa a cabeça.
VOCÊ
O ATOR
Sempre achei que sendo proativo nessa
relação, estaria sob controle ao
destruir com a minha vida. Ledo engano!
Em país de id, superego morre de fome.
Parece que quanto mais eu tento, mais as
coisas saem de órbita, causando ondas de
dores e sofrimentos. Então, permaneço
lacônico, observando o que de pior ainda
ocorrerá. E já que sou parte de uma
grande redundância, certamente irá
ocorrer!
Pessoas nas mesas continuam lendo e comentando sobre os zines e
cordéis, sem prestar atenção na leitura de VOCÊ. VOCÊ ouve alguém
rindo, olha na direção da risada e vê que a pessoa está lendo um
zine. VOCÊ prossegue.
VOCÊ
(voz trêmula, aumenta o tom)
Já fiz muitas vítimas emocionais no meu
processo de começar e nunca terminar. É
sempre aquele buraco aberto no meio da
avenida... do tipo que não importa se tu
está na pista da direita ou da esquerda:
vai atolar nele. Mas essa não é a minha
qualidade mais marcante.
(voz trêmula, tom normal)
Tem um que de buraco negro em mim. Por mais
que sugue o que o universo a minha voltatem ame oferecer, continuo me sentindo
vazio, solitário, incompreendido. Isso me
torna um mal necessário ao controle da
existência, um monstro cruel que se senta
no trono da indiferença, cumpre seu papel
existencial e retorna a escuridão.
CENA 10: INT. NOITE - BANHEIRO DO CAFÉ
EU 2 está parado na frente do espelho, com o rosto levemente virado
para a direita. VOCÊ está sentado no vaso, olhando para baixo e com
um celular na mão digitando.
CENA 11: INT. NOITE - BANHEIRO DA CASA DE EU 1
EU 2 está parado na frente do espelho, com o rosto levemente virado
para a direita. EU 1 aparece no reflexo.
CENA 12: EXT. TARDE - PÁTIO DO CAFÉ
VOCÊ olha em volta. Apenas EU 2 continua fazendo contato visual,
permanecendo sem expressões faciais. VOCÊ continua lendo:
VOCÊ
Essa vida dupla de me enganar e realmente
não dar a mínima é um jogo perdido! Acho
que quando me deparei com essa certeza,
comecei a imaginar uma resposta evasiva
o suficiente para cessar com todas as
perguntas. Mas essa resposta não está em
mim, nem em qualquer ponto do cosmo por
mim conhecido. Estou preso num corpo,
num planeta, num sonho de liberdade, na
vontade de querer voar e acabar
aprisionado pela gravidade... eis que
sou o papel jogado na rua, levado pela
correnteza até ficar preso entre a boca
do esgoto e o gosto popular, o que defato não faz diferença pra mim.(voz em
tom baixo)O vulgar nisso tudo não são os
gritos que ecoam nos condomínios da
minha mente, sequer acho que os vários
que habitam esse emaranhado de neurônios
em processo de suicídio se comunicam
(eles nem devem saber que são apenas um
pouco de muitos). O mais vulgar nisso
tudo é ter que escolher entre fuga e
ilusão, como se não já fosse uma Ópera
do Operário se sentar à mesa ou se servir
no bandejão, ainda há quem se perca entre
água e suco artificial. Definitivamente
não nasci pra ser salada, sou um esmalte
cintilante sem uma cor definida pelas
escalas comuns.
CENA 13: EXT. TARDE - PÁTIO DO CAFÉ
VOCÊ fica parado olhando em volta, todos continuam lendo e comentando
sobre os zines e cordéis, exceto EU 2. VOCÊ abaixa a cabeça, torce
o papel e olha para EU 2, que se levanta e vai na direção de VOCÊ,
parando na frente dele, da meia volta, pega seu moleskine e uma
caneta e vai novamente para a frente de VOCÊ. VOCÊ destorce o papel
e prossegue lendo:
VOCÊ
Esses processos químicos cerebrais
narcisistas e seu incrível dom de ser e
estar, mas nunca de apenas existir.
Existir era o sonho que este pobre ator
esqueceu nos momentos em que transferia
seu corpo para um texto, singelamente
chamado de adaptação - mesmo termo
biológico para sobreviver às intempéries
naturais como: idade, família, ar
condicionado, dar match na pessoa erradano Tinder, estranho contando toda sua
vida numa fila e vontade mórbida de tomar
sopa de aipo.” O ator sai de cena e entra
na vida. Mas será ele apenas mais um
ponto no universo, ou seria este seu
colóquio triste um ladrão que leva a arma
do guarda como troféu?
CENA 14: EXT. NOITE - PÁTIO DO CAFÉ
VOCÊ olha em volta, as pessoas continuam lendo e comentando sobre
os zines e cordéis. VOCÊ torce o papel de novo, atira no chão,
suspira profundamente, pega o papel no chão. Ao se levantar, EU 2
continua parado em sua frente. VOCÊ diz "OI" quase sussurrando. EU
2 sussurra em seu ouvido de VOCÊ:
EU 2
Vem comigo no banheiro, acho que você
precisa de um pouco de dignidade...
VOCÊ
Olha, a gente não se conhece, mas... ai
cara, eu não sei...
EU 2 bate no bolso e tira um pote de balas mastigáveis, sem que
VOCÊ perceba.
CENA 15: INT. NOITE - BANHEIRO DO CAFÉ
VOCÊ está no banheiro segurando um canudo de cédula numa das mãos.
VOCÊ olha para a câmera, bate no canudo, sorrindo com o canto da
boca e levanta as sobrancelhas algumas vezes.
CENA 16: EXT. NOITE - PÁTIO DO CAFÉ
EU 2 estala os dedos na frente dos olhos de VOCÊ, que faz expressão
de susto e olha para EU 2.
EU 2
Então, vai ficar ai pensando no que
perdeu?VOCÊ
Certo, mas você coloca pra mim.
EU 2
(faz sinal de não com a cabeça, e olhos
virados para cima)
Só vem, tá bom?
EU 2 vai primeiro, entra no banheiro e deixa a porta aberta. VOCÊ
entra depois e fecha a porta.
CENA 17: INT. NOITE – BANHEIRO DO CAFÉ
EU 2 se vira e fica de frente para VOCÊ, que abaixa a cabeça, coloca
a mão no bolso, pega uma carteira tirando uma cédula e um cartão de
crédito. VOCÊ faz um canudo com a cédula, enquanto EU 2 tira uma
bala mastigável do pote, segura VOCÊ pelos lábios e colocando uma
bala, ergue uma das sobrancelhas e diz:
EU 2
Você está com mal hálito.
(VOZ OVER de EU 1: te disse sem
constrangimento ou remorso.)
VOCÊ
Nossa, eu... ai, cara. Nossa! Achei que fosse
outra coisa.
EU 2
Então... não, não é. Não se trata de um raio
em troca de favores sexuais no banheiro. Só
queria te deixar tão constrangido que ao
falar dizer do que se tratava de verdade, a
vergonha fosse do pensamento anterior, não
do que tua mente achou que nos traria aqui
pro banheiro.
VOCÊ
Ainda me sinto constrangido.
EU 2
É... isso passa, eu acho. Mastiga logo e
vamos voltar. Imagina como vai serinteressante os olhares curiosos em cima da
gente.
CENA 18: INT. NOITE - BANHEIRO DA CLÍNICA
EU 1 e VOCÊ são retirados do banheiro por funcionários da clínica,
ambos se debatendo.
CENA 19: EXT. NOITE - PÁTIO DO CAFÉ
Ao sair do banheiro, as pessoas no CAFÉ estão olhando fixamente para
EU 2 e VOCÊ que se sentam cada um em uma mesa. Eu faz gesto para
VOCÊ se sentar com ele.
VOCÊ
Você me olha como se fosse me levar pra
dentro de você. Por que isso?
EU 2
Nem sequer pergunta meu nome, achou que
ganharia sexo e drogas no banheiro,
chamo de boca fedida e no final se senta
à mesa comigo...
VOCÊ
Desculpa te interromper, mas eu não
disse que faria sexo, nem que queria
drogas.
EU 2
Claro que não. Fez o canudinho pra olhar
pelo buraco da fechadura? Diz que teu
coração não tá ai, batendo tão forte
quanto prisioneiro em visita íntima. Vai
dizer que esse estômago não tá cheio de
borboletas tontas voando em torno da
luz?
VOCÊ
Eu não vou dizer nada.EU 2
E nem precisa: essa cara vermelha tá
dizendo por ti.
VOCÊ
Mas como eu poderia não sentir vergonha?
Olha as coisas que você diz! E tudo isso
aqui, em público, na frente de todo
mundo, como se fosse verdade ou a coisa
mais natural do mundo.
EU 2
A coisa mais natural do mundo pra você
então é o que essa gente vem fazer aqui?
Roubam arte dos outros, escolhem belos
nomes durante um porre ou numa visita a
Madame Cartomante Sequelada. Eles
levitam para não pisar no mesmo chão que
nós mortais pisamos, e voltam pra casa
achando que servem pra alguma coisa.
Esse é o mundo que você considera mais
normal do que olhar nos olhos de alguém
e dizer: “você se apaixonou por uma
pintura viva e falante.”?
VOCÊ
Acho que isso é um engano. Não estou
apaixonado, sequer posso dimensionar se
tenho qualquer sentimento por você. Eu
não seria leviano de me... mas que merda
eu tô falando? Eu deveria me levantar e
sair de perto de você. Mas isso vai
chamar muito mais atenção.
EU 2
Quer passar despercebido? Vem comigo.
Vou te mostrar o que é a vida real.VOCÊ
Eu não posso sair e seguir um cara
estranho, pra um lugar quem não sei onde
é.
EU 2
Minha casa, uns metros daqui. Você vai
curtir e muito dar um tempo dessa tua
sem-gracice aguda!
VOCÊ
Não, não vou.
EU 2
Para de conversa. Se fosse pra te matar
teria feito no banheiro... ou iria te
convencer a ir pra lá por uma linha.
VOCÊ
Não é como se eu fosse aceitar... (VOZ
OFF: Que cara convencido)
EU 2
Ótimo, então vamos. Eu pago essa e a
próxima é tua vez. Ah, e vê se começa a
falar menos roboticamente. Parece que
engoliu a Gramática do Professor
Tristonho e aprendeu a falar esse
português monárquico.
CENA 20: EXT. TARDE – VIADUTO
EU 2 e VOCÊ atravessam um viaduto, dois homens segurando um espelho
passam do lado deles. VOCÊ acena para o espelho, mas não aparece o
reflexo. Já o reflexo que aparece para EU é o de EU 1, segurando o
cobertor.
CENA 21: INT. MANHÃ – CORREDOR CASA DE EU
VOCÊ está deitado no divã, corpo coberto, olha em volta, tira o
cobertor, levanta anda pelo corredor até chegar na porta do banheiro.
A porta entreaberta. VOCÊ para, olha para dentro.VOCÊ
(Bate na porta) Posso entrar?
EU 2
Se não pudesse a porcariada porta
estaria trancada, né?
VOCÊ
Putz! Esqueci uma coisa, mas deixa pra
lá!
CENA 22: INT. MANHÃ - BANHEIRO DE EU
VOCÊ entra no banheiro, levanta a tampa do vaso e faz xixi. EU 2
está no box tomando banheiro. VOCÊ termina de fazer xixi, da
descarga, liga a torneira, passa muito sabão nas mãos. Olha para o
copo com a escova de EU 2.
VOCÊ
Onde tem outra escova de dente?
EU 2
Eu ia ser grosseiro e filosófico, mas
melhor só responder que dentro da
primeira gaveta.
VOCÊ
Uau! Ele se controlou e foi legal! Tá
morrendo, descobriu o amor ou tá se
divertindo ai dentro?
EU 2
Pode ser dois dos três. Advinha quais?
Aproveita que tá ai e me passa essa
toalha. Mas não limpa tua mão de mijo em
minha toalha, senão te uso como papel
higiênico.
VOCÊ
E ele voltou ao normal!
Tava demorando! Então, sai daí que quero
tomar banho também.
EU 2Se quiser pode entrar, já tô terminando.
VOCÊ termina de escovar os dentes, tira a roupa, atira no chão e
entra no box junto com EU 2.
VOCÊ
Essa água poderia estar mais quente?
EU 2
Se reclamar eu atiro esse shampoo no
teu olho!
VOCÊ
Quer tomar café fora ou fazer alguma
coisa aqui?
EU 2
Você acha que vou te dar a chance de
dizer que vamos comer aqui e acabar com
uma caixa de pizza ou duas dúzias de
pastéis?
VOCÊ
Só tem uma toalha aqui. Cadê a outra?
EU 2
Usa essa mesmo, eu uso depois que tu
terminar.
VOCÊ
Então, vamos no meu apartamento pegar
umas coisas e tentar terminar meu texto
e teu quadro.
EU 2
Imagino como está o teu apartamento. Do
tempo que tem tu aqui em casa, lá deve
ta bem sujinho, tipo um museu
abandonado, a poeira deve ser parte da
paisagem, né?
VOCÊ
Tá querendo dizer o que? Que eu vivo aqui
é? Então vai ser bom que você durma deolhos abertos, ou posso invadir teu
sonho...
EU 2
Ok! Já vi esse filme. Vamos logo? Já
estamos bem atrasados pro café, pra vida
e pra terminar esse quadro. Além do que
estou morrendo de fome.
VOCÊ
Ah, cara, vamos então! Mas nada de taxi.
Vamos andando mesmo!
VOCÊ se seca e passa a toalha para EU 2. EU 2 seca o corpo, pega uma
cueca, veste e sai do banheiro. VOCÊ pega a toalha, passa pelo corpo,
pega as roupas que havia deixado no chão e sai em seguida.
CENA 23: INT. MANHÃ – RUA
VOCÊ está com alguns materiais de arte nas mãos. VOCÊ olha para
baixo, seu cadarço está desamarrado. Ao abaixar, deixa algumas coisas
que segurava no chão. EU 2 se abaixa para pegar as coisas, fecha os
olhos.
FADE OUT
CENA 24: INT. NOITE - GRAMADO DA CLÍNICA
FADE IN
Marcas de sangue, seringas e pedaços de ataduras, receitas de
remédios controlados, velas acesas, caixas e remédios espalhados
pelo chão. Lençol ensanguentado com corpo embaixo. Arara com túnicas
brancas em cabides. Ao lado do corpo uma vitrola, passando um disco
arranhado, repetindo a frase "Please, come for me!". EU 1, vestido
com túnica vai andando em direção ao corpo, se senta, olha para as
velas e vai apagando uma a uma, fica tudo escuro.
CENA 25: INT. SALA DA CASA DE EU
EU 2 se levanta do chão, sai andando e retorna segurando o cobertor.
Se enrola, senta no chão, pega pedaços de tecido e vai colando na
tela com o contorno de rosto de VOCÊ desenhado. Para a colagem, pegapedaços de fotografias e tenta montá-las. EU 2 chora e se deita no
chão.
CENA 26: INT. MANHÃ – SALÃO DA CLÍNICA
EU 1 está sentado na frente de um espelho, o reflexo que aparece é
o de EU 2. Eu 1 e EU 2 se olham e sorriem com o canto da boca.
EU 2
Acabei de perceber o quanto espelhos são
perigosos.
EU 1
Por que demorou tanto na minha vez de
sair?
FIM