Dezembro leva à Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, filmes, realizadores e projetos audiovisuais de diferentes regiões do país. Cinema Negro em Ação chega à sétima edição em 2026 mantendo o Rio Grande do Sul como sede e inscrições abertas nacionalmente. Mostras de obras concluídas dividem a programação com atividades de formação e desenvolvimento de projetos.
Sete edições separam a programação atual de uma primeira experiência realizada em 2020. Naquele momento, o evento aconteceu em formato on-line e reuniu curtas e longas-metragens, videoclipes e videoartes. Projetos ainda em desenvolvimento também integraram a programação, em encontros com agentes do mercado audiovisual. Camila de Moraes participou da concepção e da curadoria daquela edição, a convite do então diretor do Instituto Estadual de Cinema, Zeca Brito.
Cinema Negro em Ação começou a ser formulado antes disso. Camila relatou em 2021 que o projeto vinha sendo trabalhado desde 2019. Diretora de O Caso do Homem Errado, lançado comercialmente em 2018, ela permaneceu na segunda edição como idealizadora e responsável pela curadoria de curtas e longas-metragens.
Segunda edição, realizada entre 20 e 27 de novembro de 2021, recebeu 232 inscrições, provenientes de todas as regiões brasileiras e também de países como Alemanha e Angola. Sessões foram distribuídas entre televisão aberta, canal por assinatura, internet e Cinemateca Paulo Amorim. Jeferson De foi o homenageado daquele ano.
Mercado e formação já ocupavam outro espaço dentro da mesma programação. Regulamento de 2021 previa uma categoria destinada a projetos de longas-metragens e séries, inscritos por meio de argumentos de cinco a oito páginas. Sofia Ferreira assumiu a curadoria de Mercado & Conteúdos enquanto Camila permanecia responsável pelas categorias de curtas e longas.
Sofia já trabalhava com produção, formação e articulação profissional antes de chegar à direção do IECINE. Produtora, atriz, professora, formada em Artes Cênicas e mestre em Educação, coordenou o mercado do Cinema Negro em Ação em 2021 e 2022. Na terceira edição, passou à coordenação e à curadoria geral. Em fevereiro de 2023, assumiu a direção do Instituto.
Mudança de função colocou na gestão do IECINE uma profissional que havia trabalhado diretamente na programação do evento. Cinema Negro em Ação, por sua vez, continuou dentro da estrutura da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul e do Instituto. Em 2023, a quarta edição recebeu mais de 250 projetos e reuniu exibições, painéis sobre mercado audiovisual, rodadas de negócios e ações formativas.
Casa de Cultura Mario Quintana acompanha parte dessa trajetória. Cinemateca Paulo Amorim, salas de exibição e atividades presenciais passaram a compartilhar o mesmo endereço com encontros profissionais e ações de formação. Em vez de funcionar apenas como local para sessões, o complexo passou a concentrar diferentes etapas da programação.
Formação de profissionais e desenvolvimento de projetos ganharam outra configuração nas edições seguintes. Sopapo Lab passou a receber trabalhos que ainda não chegaram à etapa de produção, colocando-os em atividades de consultoria e conexão com outros agentes do setor. Em 2025, prêmios destinados aos participantes incluíram cursos, credenciais para eventos de mercado e consultoria de desenvolvimento. Na mesma edição, obras da Bahia, Maranhão, Rio de Janeiro e outros estados apareceram entre as premiadas, enquanto categorias Destaque RS permaneceram destinadas a profissionais gaúchos.
Abrangência nacional convive, assim, com um recorte territorial. Porto Alegre é a sede. Parte da estrutura institucional e das atividades está vinculada ao Rio Grande do Sul. Seleção de filmes e projetos, porém, atravessa as fronteiras estaduais desde as primeiras edições.
Esse movimento também pode ser observado a partir de quem trabalhava no setor quando o festival começou. Macumba Lab reunia, em 2020, mais de 30 profissionais negros de diferentes áreas do audiovisual gaúcho. Levantamento divulgado naquele período pelo coletivo identificava dois longas-metragens de ficção dirigidos por pessoas negras na produção cinematográfica do Rio Grande do Sul: Um é Pouco, Dois é Bom, dirigido por Odilon Lopez e lançado em 1970, e O Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes, lançado em 2018.
Distância de quase cinco décadas entre os dois títulos não informa quantas pessoas negras trabalhavam no audiovisual gaúcho naquele período, nem permite medir sua participação no conjunto do setor. O levantamento registra outra coisa: a presença de realizadores negros na direção de longas de ficção dentro daquele recorte histórico. Dados públicos disponíveis não oferecem, até o momento, uma série atual que permita calcular a composição racial de todos os profissionais do audiovisual do Estado.
Odilon Lopez reaparece posteriormente na própria estrutura do Cinema Negro em Ação. Seu nome passou a identificar o troféu entregue pelo festival. Relação com essa memória antecede a premiação: Sofia Ferreira participou da produção executiva do projeto Odilon Lopez – 50 Anos antes de assumir a direção do IECINE. Assim, o cineasta que aparece no levantamento histórico sobre direção negra no Estado também permanece associado às ações contemporâneas do Instituto.
Camila e Sofia ocupam posições diferentes nessa trajetória. Camila está documentada na formulação e curadoria do Cinema Negro em Ação desde sua origem. Sofia aparece inicialmente na frente de mercado e desenvolvimento, passa à coordenação e curadoria geral e, posteriormente, à direção do órgão público responsável pelo programa. Percursos das duas se encontram na edição de 2021, quando Camila cuidava da curadoria de curtas e longas e Sofia respondia por Mercado & Conteúdos.
Quatro anos depois, a sexta edição já apresentava outra configuração. Mais de vinte títulos integraram a programação de 2025, distribuída entre Casa de Cultura Mario Quintana e transmissões pela TVE-RS, Prime Box Brazil e Cultne.TV. Sopapo Lab funcionava paralelamente às mostras. Tony Tornado recebeu o Troféu Odilon Lopez, entregue por Sofia Ferreira e pela curadora-geral Kaya Rodrigues.
Sétima edição encontra, portanto, uma estrutura diferente daquela utilizada em 2020, embora algumas funções permaneçam reconhecíveis. Obras concluídas chegam pelas mostras. Projetos em desenvolvimento entram pelo laboratório. Formação aparece em atividades paralelas. Mercado participa por meio de consultorias, encontros e conexões profissionais. Casa de Cultura Mario Quintana permanece como endereço físico enquanto a seleção recebe trabalhos de outros estados.
Porto Alegre continua sendo o ponto de encontro. Cinema Negro em Ação, entretanto, não delimita sua atuação pela procedência geográfica dos realizadores. Entre a primeira edição e a programação de 2026, essa combinação entre uma política audiovisual sediada no Rio Grande do Sul e a circulação de filmes e projetos vindos de diferentes partes do Brasil passou a fazer parte da própria estrutura do evento.
