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CADERNOMercado

Quando o fã acompanha o artista até a tela

Do K-pop ao cinema brasileiro, artistas que atravessam linguagens e fandoms que acompanham essas mudanças ajudam a entender mobilização, marketing e desenvolvimento de audiência.

Lalisa Manobal já possuía uma audiência internacional construída como Lisa, integrante do BLACKPINK, quando passou a atuar na terceira temporada de The White Lotus. A produção da HBO, lançada em 2025, marcou sua estreia como atriz no papel de Mook. A própria YG Entertainment utiliza oficialmente BLINK como nome do fandom do BLACKPINK desde 2017.

Kim Taehyung, o V do BTS, havia feito movimento semelhante alguns anos antes. Em 2016, integrou o elenco de Hwarang, da KBS, interpretando Han-sung. Na apresentação da série, a emissora registrou aquele trabalho como seu primeiro desafio como ator.

Casos como Lisa e V colocam duas questões diferentes em contato. Uma envolve a passagem profissional entre música e atuação. Outra aparece quando parte do público construído em uma linguagem acompanha o artista até um filme, série ou programa de televisão.

Essa circulação assume formas distintas conforme a indústria em que acontece.

Na Coreia do Sul, canto e atuação pertencem ao mesmo campo regulatório

Legislação sul-coreana ajuda a compreender a frequência com que artistas do K-pop aparecem também em produções audiovisuais.

A Popular Culture and Arts Industry Development Act define como serviços de cultura popular atividades que incluem atuação, dança, execução de instrumentos e canto. A mesma norma considera artista de cultura popular a pessoa que presta esses serviços e reúne, dentro da indústria, produtos como filmes, programas de televisão, apresentações, discos, arquivos musicais e videoclipes.

Empresas responsáveis por planejamento, intermediação, treinamento e gerenciamento de artistas também aparecem formalmente nessa estrutura. A lei prevê registro para o negócio de planejamento e agenciamento de cultura popular e disciplina contratos entre artistas, produtores e gestores.

Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia mantém contratos-padrão de exclusividade para cantores e atores. Também publica modelos distintos para participação em conteúdos de música, drama e produções audiovisuais de outros formatos.

A legislação consultada concentra sua classificação na prestação dos diferentes serviços culturais e na atividade das empresas que os administram. Nesse diploma, a atuação profissional individual não aparece condicionada a um registro equivalente ao DRT brasileiro.

No Brasil, a mudança de linguagem pode envolver registro profissional

Estrutura jurídica brasileira segue outra organização.

A Lei nº 6.533, de 1978, determina registro prévio para o exercício profissional de Artista e Técnico em Espetáculos de Diversões. Para obtenção do registro, a norma prevê formação reconhecida ou atestado de capacitação profissional fornecido pela entidade sindical representativa da categoria.

Ministério do Trabalho e Emprego continua tratando o Registro Profissional como condição para o exercício das categorias regulamentadas e mantém o procedimento pelo SIRPWEB. No cotidiano do audiovisual, esse registro continua sendo chamado de DRT, referência às antigas Delegacias Regionais do Trabalho.

Assim, uma cantora ou um cantor que assuma profissionalmente uma função de ator passa a exercer uma atividade submetida a regulamentação própria. Mudanças entre funções do audiovisual também exigem atenção ao enquadramento previsto pela Lei nº 6.533 e pelo Decreto nº 82.385/1978.

O tema é detalhado em outra matéria do Caderno, Como funciona a regulação do trabalho no audiovisual.

Música e atuação se cruzam há décadas em Hollywood

Presença de músicos no cinema antecede a atual estrutura de idols.

Cher construiu carreiras paralelas e venceu o Oscar de melhor atriz por Moonstruck em 1988. Anos depois, apareceu ao lado de Christina Aguilera em Burlesque, produção de 2010 centrada em música e performance.

Dreamgirls – Em Busca de um Sonho reuniu Beyoncé e Jennifer Hudson em 2006. Hudson chegou ao longa depois de ganhar projeção como cantora e recebeu o Oscar de atriz coadjuvante por Effie White. A produção acumulou seis indicações e duas vitórias na cerimônia de 2007.

Lady Gaga aparece em outro momento dessa tradição. Depois de trabalhos anteriores como atriz, assumiu o protagonismo de Nasce uma Estrela, ao lado de Bradley Cooper, em 2018.

Essas trajetórias apresentam graus diferentes de continuidade. Alguns artistas fazem trabalhos pontuais. Outros mantêm atuação e música como atividades profissionais simultâneas.

Fábio Jr., Pai Herói e a experiência brasileira

Brasil possui exemplos anteriores à atual circulação entre redes sociais, streaming e cinema.

Fábio Jr. já atuava quando sua carreira musical ganhava projeção. Em Ciranda Cirandinha, de 1978, interpretava Hélio, jovem ligado à música, e cantou “Pai” dentro da própria série. Memória Globo registra que a canção inspirou Janete Clair a batizar a novela Pai Herói, de 1979, e posteriormente tornou-se seu tema de abertura.

A trajetória continuou nas duas áreas. Globo registra personagens de Fábio Jr. em produções como Cabocla, além de trabalhos posteriores em Roque Santeiro e Pedra sobre Pedra.

Seu Jorge fornece outro caso brasileiro, com presença continuada no cinema. Depois de interpretar Mané Galinha em Cidade de Deus, atuou em The Life Aquatic with Steve Zissou, Casa de Areia, Tropa de Elite 2, Abe, Marighella, Pixinguinha e Medida Provisória, entre outros títulos registrados em sua filmografia oficial. Em Abe, integrou o elenco ao lado de Noah Schnapp, conhecido por Stranger Things.

Trajetórias desse tipo mostram que a circulação entre música e atuação também faz parte da indústria brasileira. Estruturas profissionais e mecanismos de entrada mudam conforme o mercado e a função exercida.

Outra diferença ganhou importância com as plataformas digitais: artistas passaram a atravessar linguagens acompanhados por comunidades capazes de produzir e distribuir conteúdo sobre essas mudanças.

Seguidor e fandom medem coisas diferentes

Quantidade de seguidores indica alcance potencial. Capacidade de mobilização acrescenta outras variáveis.

Estudo publicado em 2024 na revista Telematics and Informatics analisou quantitativamente a rede do ARMY no Twitter. Os pesquisadores identificaram uma estrutura sustentada por participantes que exercem diferentes funções voluntárias dentro da comunidade. Na comparação realizada pelo estudo, a rede do ARMY apresentou organização mais sistemática que a rede analisada de fãs de Ariana Grande.

Outra pesquisa, publicada na Asia Pacific Business Review, estudou BTS e ARMY sob a perspectiva de cocriação de valor. O trabalho descreve fãs produzindo conteúdo e distribuindo-o para redes mais amplas, contribuindo para conhecimento e valor associados ao grupo.

Produção de traduções, circulação de informações e outras formas de trabalho voluntário de fãs também aparecem em pesquisas sobre fandoms digitais e transnacionais.

Esses mecanismos ajudam a explicar por que o efeito de um fandom ultrapassa o número exibido no perfil de uma rede social. Mobilização envolve capacidade de concentrar atenção, produzir materiais, recuperar conteúdos anteriores, organizar informação e acompanhar lançamentos.

Quando um artista muda de linguagem, parte dessa infraestrutura pode acompanhá-lo.

ARMY chega a um trabalho de V trazendo anos de repertório acumulado em torno do BTS. BLINK encontra Lisa em uma série da HBO partindo de uma relação anterior com o BLACKPINK. Conversão dessa atenção em audiência precisa ser medida por dados específicos da obra. A circulação do conteúdo já pode ser observada de forma independente.

Malipe mostra esse mecanismo dentro da televisão brasileira

Novela acrescenta uma característica particular a essa relação: escrita, produção e exibição convivem durante meses.

Em Quem Ama Cuida, da Globo, uma torcida passou a defender nas redes a aproximação entre Mau Mau, interpretado por João Victor Gonçalves, e Felipe, vivido por Pietro Antonelli. O ship recebeu o nome de Malipe.

Segundo apuração do Notícias da TV, Felipe não fazia parte do desenho amoroso originalmente planejado para Mau Mau. A sinopse previa outro triângulo, envolvendo Fernando e Rafael. O veículo informou que a mobilização pelo casal ganhou força nas redes e que a trama foi posteriormente alterada para incorporar Felipe como interesse amoroso.

Pietro Antonelli afirmou posteriormente ao mesmo veículo que a torcida já existia antes da estreia da novela, embora ele próprio não soubesse precisar a origem do movimento.

Globo registrou depois a aproximação dos personagens dentro da narrativa, incluindo o interesse de Mau Mau por Felipe e o desenvolvimento da relação na escola de dança.

Malipe funciona como exemplo de mobilização de público chegando a uma obra aberta enquanto ela ainda está em produção. A relação causal entre pressão do público e mudança de roteiro permanece atribuída à apuração jornalística citada, já que não foi localizada declaração pública dos autores detalhando esse processo.

Atenção, intenção e consumo pertencem a etapas diferentes

Marketing fornece uma distinção necessária para analisar esses fenômenos.

Pesquisa publicada na Brazilian Business Review estudou 622 usuários de smartphones e encontrou que consciência de marca não apresentou impacto direto sobre intenção de compra naquele universo. O efeito apareceu mediado por qualidade percebida, associações de marca e lealdade. O estudo trata de smartphones, portanto seus resultados não devem ser transferidos numericamente para cinema. O conceito ajuda a separar conhecimento da marca e decisão de consumo.

Audiovisual permite observar etapas semelhantes. Uma pessoa pode conhecer um filme, reconhecer personagens, assistir a trailers e acompanhar conteúdos relacionados antes de consumir a obra.

Momento do consumo também varia. Cinema, aluguel digital, streaming por assinatura e televisão apresentam condições diferentes de acesso, preço, horário e disponibilidade.

Para marketing audiovisual, circulação e venda precisam ser acompanhadas por indicadores próprios.

He-Man mostra que fandom também pode existir em torno de uma propriedade intelectual

Música representa apenas uma das origens possíveis para uma comunidade de fãs.

Masters of the Universe começou como uma linha de bonecos lançada pela Mattel em 1982. No ano seguinte, He-Man and the Masters of the Universe levou os personagens para uma série animada baseada nos brinquedos. A própria Mattel descreve a animação de 1983 como uma extensão narrativa da linha original.

Décadas de brinquedos, animações, quadrinhos, filmes e colecionáveis criaram uma comunidade ligada à propriedade intelectual, independentemente da presença de um artista específico.

Campanha do longa Mestres do Universo, lançado em 2026, reconheceu formalmente essa base. Mattel, Amazon MGM Studios e Save the Children anunciaram uma ação internacional cuja comunicação dizia expressamente que pretendia mobilizar o fandom. Conteúdo produzido por fãs, exibições comunitárias e a hashtag #YouHaveThePower integraram a iniciativa.

No Brasil, ocorreu uma associação criada inicialmente fora da campanha oficial. Em janeiro de 2026, uma montagem publicada pelo perfil @CrazyFireYT7 combinou cenas do primeiro trailer com “He-Man”, sucesso do Trem da Alegria nos anos 1980. O vídeo ganhou circulação no TikTok e foi registrado pelo R7.

Meses depois, Sony Pictures Brasil publicou oficialmente um trailer utilizando a música do Trem da Alegria. A cronologia comprova a existência anterior da associação feita pelo fã. As fontes consultadas não estabelecem relação causal entre o primeiro vídeo e a decisão posterior da distribuidora.

O longa também teve comportamentos diferentes conforme a janela. Dados do The Numbers registram orçamento de produção de US$ 170 milhões e bilheteria mundial de US$ 113,8 milhões. Posteriormente, o filme ocupou o primeiro lugar mundial entre os títulos do Prime Video durante cinco semanas consecutivas nos rankings compilados pelo FlixPatrol. No Brasil, chegou também à primeira posição entre os filmes da plataforma.

Esses números permitem comparar desempenho entre janelas. Atribuir a diferença a fandom, preço, campanha ou conveniência exigiria uma análise causal específica.

O público também pode entregar uma ideia ao marketing

O Agente Secreto fornece um caso brasileiro em que campanha oficial e circulação criada pelo público passaram a compartilhar elementos.

Vitrine Filmes começou a trabalhar a comunicação do longa ainda durante seu percurso de lançamento e adotou diferentes materiais para salas e eventos. Entre eles estavam orelhões e referências à Perna Cabeluda, elemento do próprio filme transformado em peça recorrente de identificação da campanha. Segundo relato publicado pelo Portal Exibidor, a estratégia incluiu pré-venda antecipada, pré-estreias pagas em todos os estados e diferentes displays para os cinemas.

Outra associação surgiu entre o público.

Vídeos de Wagner Moura começaram a circular acompanhados por “O Baiano Tem o Molho”, de O Kannalha. Em entrevista à BBC News Brasil, o cantor afirmou que a ligação inicial foi feita por fãs em vídeos e cortes publicados antes do lançamento do filme. Depois dessa circulação, a Vitrine Filmes entrou em contato com o artista.

Ligação entre música, ator e campanha chegou também à pré-estreia de Salvador, quando Wagner Moura e O Kannalha participaram juntos de evento no Cine Glauber Rocha.

Nesse caso, comunicação criada pelo público forneceu uma associação que posteriormente passou a conviver com a campanha profissional do longa.

O que profissionais do audiovisual podem observar nos fandoms

ARMY, BLINK, comunidades ligadas a He-Man e torcidas formadas em torno de personagens de novela possuem origens diferentes. Todos os casos examinados envolvem algum grau de continuidade entre obra, artista e público.

Pesquisas sobre fandom já identificam fãs como agentes de circulação, filtros, produtores de conteúdo e participantes de processos de cocriação de valor.

Cinema trabalha com períodos longos de desenvolvimento e produção, enquanto a janela de lançamento pode concentrar grande parte da comunicação em poucas semanas. Comunidades organizadas operam em outra escala temporal: acompanham anúncios, produção, trailers, estreia, repercussão e disponibilização posterior.

Música e televisão já oferecem situações em que esse acompanhamento contínuo é incorporado à relação com o público. Cinema brasileiro apresenta experiências que apontam na mesma direção, como a campanha de O Agente Secreto e a circulação de propriedades com bases anteriores de fãs.

Para profissionais do audiovisual, ARMY e outros fandoms oferecem referências observáveis sobre organização, permanência e mobilização de audiência. Construção de público pode começar antes da estreia e continuar entre diferentes janelas. Compreender essas práticas amplia o repertório disponível para desenvolvimento de audiência, distribuição e comunicação audiovisual.

Fontes e referências

Fontes consultadas em 4 de outubro de 2026.