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Hollywood é logo ali

Como um filme brasileiro chega ao Oscar

Todo ano, a escolha do filme que representará o Brasil no Oscar produz uma impressão de chegada. Sai o título, começam as manchetes e parece que aquela obra já entrou oficialmente na competição.

O caminho ainda é bem mais longo.

Em 16 de setembro de 2026, Feito Pipa, de Allan Deberton, foi escolhido para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027. Isso não significa que o longa esteja indicado ao prêmio — nem que sua elegibilidade esteja automaticamente confirmada pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences. Significa que ele foi o filme selecionado pelo Brasil para ser submetido à organização responsável pelo Oscar.

Entre essa escolha e uma eventual indicação existem lançamento comercial, documentação, regras de elegibilidade, duas etapas de votação e uma shortlist de 15 filmes antes que sejam conhecidos os cinco indicados.

Melhor Filme Internacional tem regras próprias. Para a 99ª edição, podem participar longas com mais de 40 minutos, produzidos fora dos Estados Unidos e de seus territórios e com mais de 50% dos diálogos em idioma diferente do inglês. Animações e documentários também podem concorrer.

No caminho tradicional, cada país ou região pode apresentar apenas um filme como sua seleção oficial. Antes disso, porém, existe uma condição importante: a obra precisa cumprir as exigências de lançamento comercial.

No processo brasileiro de 2027, podiam se candidatar filmes lançados entre 1º de outubro de 2025 e 30 de setembro de 2026 e exibidos por pelo menos sete dias consecutivos em cinema comercial. A inscrição também exigia Certificado de Produto Brasileiro, o CPB emitido pela Ancine, e documentos que comprovassem a exibição, incluindo borderô com informações de público e receita encaminhadas pela distribuidora. Caso a estreia acontecesse depois do encerramento das inscrições brasileiras, produtora e distribuidora deveriam apresentar uma carta informando a data prevista.

Distribuição, portanto, não aparece apenas depois que o filme está pronto. Planejar quando e como uma obra chega às salas pode determinar se ela cumpre uma das condições necessárias para disputar a seleção nacional.

Também existe uma ordem a respeitar. Pelas regras da Academy, exibição pública não cinematográfica antes do lançamento que qualifica a obra — como televisão, vídeo sob demanda ou streaming — pode torná-la inelegível pela via convencional.

Isso não significa que uma distribuidora escolha quem representa o Brasil. Não escolhe. Significa que lançamento e distribuição fazem parte do caminho que permite ao filme chegar à escolha.

No Brasil, essa seleção é organizada pela Academia Brasileira de Cinema. Em 2026, a Comissão de Seleção foi formada por 15 profissionais: 12 escolhidos em votação entre os associados da entidade e três indicados pela diretoria. Em 9 de setembro, a comissão reduziu os inscritos a seis títulos. Uma semana depois, escolheu Feito Pipa.

Aqui aparece uma confusão frequente. A lista brasileira com seis filmes não é a shortlist do Oscar.

A primeira pertence ao processo de escolha do representante nacional. A segunda é formada posteriormente pela própria Academy, entre filmes considerados elegíveis para a categoria.

Nem mesmo vencer a seleção brasileira torna uma obra automaticamente elegível. Depois da escolha nacional, a Academy analisa a documentação e verifica se o filme cumpre a Regra 16. Questões de elegibilidade podem ser encaminhadas ao Comitê Executivo da categoria.

Por isso, dizer que Feito Pipa já está indicado ao Oscar estaria errado. Em 25 de setembro, sua situação era outra: representante brasileiro na disputa por uma indicação a Melhor Filme Internacional.

A edição de 2027 trouxe ainda uma mudança importante. Pela primeira vez, existe uma segunda porta para a categoria.

Além da seleção oficial feita por um país ou região, um filme em idioma predominantemente não inglês pode ser submetido se vencer um prêmio específico em um dos seis festivais determinados pela Academy: Urso de Ouro de Berlim, Busan Award de Melhor Filme, Palma de Ouro de Cannes, World Cinema Grand Jury Prize de Sundance, Platform Award de Toronto ou Leão de Ouro de Veneza.

Não basta, portanto, ter sido selecionado por Cannes, Berlim, Veneza ou Toronto. Também não basta ganhar qualquer prêmio nesses festivais. A regra determina qual prêmio abre essa segunda possibilidade.

A Alemanha ajuda a entender a diferença. Everytime foi escolhido como representante oficial do país. Ao mesmo tempo, Yellow Letters, vencedor do Urso de Ouro, e Shame and Money, premiado em Sundance, também se qualificaram para submissão pela nova regra. Um país continua indicando apenas um representante oficial, mas pode ter outros filmes entrando no processo pela janela dos festivais.

Na Índia ocorreu situação semelhante. Gondhal foi escolhido como representante oficial, enquanto Angh, de Theja Rio, conquistou outra possibilidade de entrada ao vencer o Platform Award no Festival de Toronto.

Até 25 de setembro de 2026, nenhum longa brasileiro havia conquistado um dos prêmios qualificatórios já anunciados para entrar por essa segunda via. O percurso de Feito Pipa, portanto, seguia pela seleção oficial brasileira.

Depois da escolha nacional, chega a vez da submissão à Academy. O prazo da categoria termina em 30 de setembro de 2026. Entre os materiais exigidos estão formulários, créditos, comprovantes do lançamento comercial, arquivo digital do filme e legendas ou closed captions em inglês.

Só depois da análise dessas informações o filme pode ser tratado como elegível.

Daí começa outra fase.

Na primeira rodada de votação, membros ativos e vitalícios da Academy podem optar por participar da categoria. Quem participa precisa assistir ao número mínimo de filmes estabelecido pelos procedimentos da organização. Cada votante pode indicar, em ordem de preferência, até 15 títulos. Os 15 mais votados avançam.

Essa é a verdadeira shortlist do Oscar.

Para a 99ª edição, ela será anunciada em 15 de dezembro de 2026.

Chegar aos 15 ainda não significa estar indicado. Na rodada seguinte, membros ativos e vitalícios que desejarem votar precisam assistir a todos os filmes da shortlist. Cada participante pode escolher até cinco, novamente por ordem de preferência. Os cinco mais votados tornam-se os indicados oficiais a Melhor Filme Internacional.

As indicações serão anunciadas em 21 de janeiro de 2027. Só nesse momento haverá cinco filmes efetivamente indicados ao Oscar naquela categoria.

Outra mudança estreia nesta edição: o indicado passa a ser formalmente o filme, e não o país ou região que o submeteu. Caso vença, a estatueta é concedida à obra e recebida pelo diretor em nome da equipe criativa.

Na votação final, podem participar membros ativos e vitalícios da Academy que tenham assistido aos cinco indicados. O resultado será conhecido na cerimônia marcada para 14 de março de 2027.

Entre a escolha feita no Brasil e essa noite existem, portanto, decisões diferentes.

Primeiro, um filme precisa cumprir as regras que permitem sua participação. Depois, uma comissão brasileira escolhe o representante nacional. A Academy verifica sua elegibilidade. Os votantes reduzem o conjunto de filmes a 15. Uma nova votação chega aos cinco indicados. Só então acontece a decisão final.

Festivais, distribuição, salas de cinema, produtores, comissão nacional e membros da Academy entram nesse percurso em momentos diferentes.

Em 25 de setembro de 2026, Feito Pipa havia vencido a etapa brasileira. Tinha sido escolhido para representar o país, mas ainda não estava na shortlist e muito menos entre os cinco indicados.

Hollywood é logo ali.

Só não é a próxima parada.

Fontes: Academy of Motion Picture Arts and Sciences — regras e elegibilidade · Academy — calendário da 99ª edição · Academy — mudanças nas regras para o Oscar 2027 · Academia Brasileira de Cinema — Regra 16 · Academia Brasileira de Cinema — Comissão de Seleção 2027 · Academia Brasileira de Cinema — inscrição e documentação · Academia Brasileira de Cinema — escolha de Feito Pipa · German Films — seleção alemã e qualificação por festivais · The Indian Express — Angh e a via do Platform Award · Sundance Institute — premiação de 2026 · Festival de Cannes — premiação de 2026 · Biennale di Venezia — premiação de 2026